15 Dezembro, 2008

A Função Social da História no Mundo de Hoje

- Uma visão e uma interpretação pessoais.

Analisar e interpretar, com uma visão pessoal, a reflexão do Professor José Mattoso sobre A Função Social da História no Mundo de Hoje, constitui um dos quinze objectivos [1] específicos do programa da disciplina de Introdução à História – I, do Curso de História, da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, da Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, durante o presente ano académico de 2008/2009.
Assim, é natural que, de um ponto de vista personalizado, com base na leitura efectuada [2], nos seja dada a oportunidade de defender a tese, sobre algumas das mais pertinentes, lúcidas e actuais páginas da teorização moderna sobre o real papel e a função social da História nos tempos que nos coube em sorte viver e nos quais o insigne Professor José Mattoso, figura de Mestre e de Sábio que, como autor e investigador da historiografia contemporânea portuguesa, é um dos mais preclaros precursores.


Quem é José Mattoso?

Aqui, convirá abrir um parêntesis e saber mais sobre a vida e obra do cantado e analisado autor.
José João da Conceição Gonçalves Mattoso, nasceu em Leiria, no ano de 1933 [3]. Do ponto de vista genealógico, sabemos que é filho de António Gonçalves Matoso, também investigador e autor de temas históricos, nomeadamente dos célebres compêndios de História, do ciclo liceal, então aprovados pelo Ministério da Educação, do período do chamado Estado Novo e que acompanharam várias gerações de estudantes do ensino médio.
José Mattoso, professou como monge beneditino, no Mosteiro de Singeverga, tendo adoptado o nome religioso de Frei José de Santa Escolástica Mattoso e, ainda, como membro da província portuguesa desta ordem secular, doutorou-se em História Medieval – com a defesa da tese “Le Monachisme Ibérique et Cluny: Les monastéres de la Diocése du Porto de l’an mille à 1200”-, pela Universidade de Lovaina, no reino dos belgas, em 1966.
Em 1970, obteve a redução ao estado laico e entra como docente universitário na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Em 1978, integra como docente e investigador a Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, da Universidade Nova de Lisboa. Foi investigador do Centro de Estudos Históricos da Universidade de Lisboa; foi o primeiro presidente (1980-1981) do efémero Instituto Português de Arquivos; desempenhou o cargo de Magnífico Vice Reitor da Universidade Nova de Lisboa; e, em 1996, foi nomeado presidente do Instituto dos Arquivos Nacionais da Torre do Tombo, cargo que abandonou em Janeiro de 1998, tendo tido um assinalável e reconhecido trabalho de uma notável reorganização daqueles tão importantes serviços públicos nacionais.
A sua investigação centra-se, sobretudo, na História Medieval e, dentro deste período, na história monástica, na história da nobreza, da cultura e das mentalidades. Para lá de ser muito considerado como um dos grandes medievalistas portugueses do nosso tempo, não é menos verdade que José Mattoso, se tem distinguido como um dos mais expressivos e profícuos teorizadores da história e da historiografia mais recente.
Nesta condição, a José Mattoso é apontada a paternidade de “algumas das mais significativas páginas da teoria crítica moderna e do pós-modernismo”[4] e, consequentemente, é considerado como uma “incontornável figura de autor e investigador da historiografia contemporânea portuguesa, de que é um dos mais preclaros paladinos”[5] .
“Em ruptura com o modernismo (corrente literária, musical, artística, arquitectónica, cultural, etc… contra o classicismo, a favor da estética, que corresponde ao final do século XIX e perdura até à II Grande Guerra Mundial), com o chamado modernismo histórico, onde sobressaiem Alexandre Herculano e Oliveira Martins, os pós-modernistas, de que é figura emblemática o Professor José Mattoso, estabelecem uma nova filosofia ou teoria de escrever a História”[6] .
Poderemos com propriedade falar de uma teoria ou conceito da História que é, ao mesmo tempo e em si mesma, uma assunção ecléctica de saberes e experiências – a Nova História!
Em 1985, José Mattoso, recebeu o Prémio de História Medieval Alfredo Pimenta (célebre medievalista e polemista, monárquico e salazarista, cujos textos doutrinários, muito controversos, fizeram estória nos anos anteriores ao fim do regime personalizado no Doutor António de Oliveira Salazar); mais tarde recebeu o Prémio de Ensaio do Pen Clube; em 1987, o primeiro Prémio Pessoa, atribuído pelo semanário “Expresso”; e, em 1991, o Prémio Internacional de Genealogia Bohus-Szogyeny, atribuído pela Academia Internacional de Ciências Genealógicas.
No ano passado, José Mattoso foi, também, distinguido com o Troféu Latino 2007, atribuído pela União Latina, em reconhecimento pela sua trajectória profissional, pela sua obra no campo da investigação histórica mas, sobretudo, pelo seu relevante contributo na definição e reconhecimento da identidade portuguesa e da sua componente cultural latina nas raízes europeias.
Já depois da independência, do Estado de Timor-Leste, José Mattoso, colaborou na recuperação e organização do Arquivo Histórico Nacional, do Arquivo da Resistência e, como docente, leccionou aulas das disciplinas da História da Igreja e de História da Filosofia Medieval, no Seminário Maior de Díli.
Hoje em dia, apesar de muito activo, José Mattoso, vive nas crestadas planícies do baixo alentejo, onde encontra a paz e a tranquilidade para uma mais eficaz investigação e coordenação de inúmeros projectos editoriais de que assumiu a direcção e, em alguns casos, a própria autoria.


Bibliografia de José Mattoso
– Alguns Subsídios…

Reconhecido em Portugal e além fronteiras, pelo seu trabalho e extensa obra de grande alcances, José Mattoso, é autor, entre outros títulos, de: Ricos-Homens, Infanções e Cavaleiros (1982), sobre alguns aspectos sociais de um dos três estados da sociedade medieval – a Nobreza; Fragmentos de uma Composição Medieval; Identificação de um País. Ensaio sobre as Origens de Portugal 1096-1325 – Volume I “Oposição” e Volume II “Composição” (1985), com mais quatro edições sucessivas, sempre revistas e constantemente actualizadas, na década subsequente; as colectâneas de artigos A Nobreza Medieval Portuguesa. A Família e o Poder (1981); Religião e Cultura na Idade Média Portuguesa (1982); Portugal Medieval Novas Interpretações (1985); e, A Escrita da História – Teoria e Métodos (1988). Dirigiu, ainda, a História de Portugal, editada entre 1993 e 1994, em oito grossos volumes, da Editorial Estampa (e, também, do Círculo de Leitores), cujo último exemplar se dedica já à história recente, que medeia entre os anos de 1974 e 1985. Nesta obra monumental, para lá do papel de direcção geral, assumiu a coordenação e autoria dos volumes respeitantes à sua área do saber, interesse e especialização.


A Função Social da História…

Enquadrado o autor e apresentados, sem cuidados de exaustão, alguns dos seus títulos mais significativos, de forma a melhor compreender o verdadeiro alcance das suas ideias e teses sobre qual a função social da história no mundo de hoje, em geral, e em Portugal, de forma mais particular, convirá agora que nos detenhamos na nossa interpretação da conhecida análise de José Mattoso, subscrita num texto que serviu de base à comunicação apresentada na abertura do ano académico de 1998-1999, a 15 de Outubro de 1998, da licenciatura em História, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, da Universidade Nova de Lisboa.
Numa leitura em diagonal e sem grandes devaneios, poderemos sem problemas de maior definir que o tema central deste texto é uma reflexão bem alicerçada, em sábios conhecimentos, teóricos e experimentados, anos de prática bem vivenciados – como a curiosa estória do filho do capitalista que estava a fazer a licenciatura em História, para depois na sua vida profissional ser gestor dos bens familiares, evidenciando que o curso de história, lhe dava uma amplitude de conhecimentos e uma valência transversal de conhecimentos essenciais no seu futuro – e, um profundo conhecimento do seu tempo, da sociedade em que se sente envolvido, da realidade sempre em mudança e do mundo mais global em que se insere. Ao fim e ao cabo, José Mattoso, desfia um largo conjunto de ideias, teses, confrontações, paralelismos, experiências, memórias do que foi, é e poderá vir a ser o papel activo e a utilidade prática do estudo, da investigação e de uma licenciatura em História, na sociedade contemporânea, na ponta final do século XX.
Num texto, muitíssimo bem escrito, em correcto português, bem definido por uma clara coluna vertebral de ideias e de um harmonioso e cadenciado patamar de sucessivas interligações ou interpenetrações com o mundo real em que o historiador, profissional ou não, o licenciado, o aluno ou o simples curioso da história, se confronta quotidianamente, este texto merece que nos detenhamos num conjunto de tópicos que nos suscitam maior detalhe:

- A necessidade de auto-estima, de uma interiorização das verdadeiras capacidades, competências e valências individuais;
- O conhecimento em detrimento da autoridade;
- Comparação quantitativa da produção e edição histórica, durante três décadas ( anos 60 e finais de anos 90 ), onde se regista um assinalável crescimento qualitativo;
- Variedade e diversidade de oferta: congressos, seminários, cursos livres, edições, comemorações, etc…;
- Projecção Cultural, Económica, Social e Política da História;
- Empregabilidade e Estabilidade Profissional do Licenciado em História;
- Validade, Desenvolvimento e Polivalência da Licenciatura;
- Multidisciplinaridade e Interdisciplinaridade da História;
- Descentralização e Desburocratização;
- “Gosto pela História”, versus “Vocação para a Investigação”;
- Ausência de Centros de Investigação em Ciências Humanas;
- Empreendedorismo e Massa Crítica;
- Relativização das ideias, dos conhecimentos, das crenças, das ideologias e das doutrinas;
- Preservação da Memória, Identidade, Sobrevivência e Soberania;
- Dimensão Espacial e Temporal da Complexidade Social da História;
- Confiança em mais e melhores oportunidades;
- Optimismo em mais e melhor Futuro!

Se tivermos em atenção que este texto, já com dez anos, foi assinado antes da Declaração de Bolonha, poderemos com toda a propriedade afirmar que ele não só foi precursor das suas teses fundamentais – competências, capacidades, valências, transversalidade, multidisciplinaridade, interdisciplinaridade, mobilidade, mercado, diversificação de empregabilidade – como está, cabalmente, dentro do “espírito de Bolonha”!


Qual é a Tese do Autor?

Em breve e pessoalíssima conclusão, poderemos dar como tese do autor, a mensagem de optimismo militante com que José Mattoso exorta os jovens estudantes de História, a alargarem horizontes, estabelecerem pontes, aproximarem visões, compararem leituras, experimentarem e ousarem, sem tibiezas, sem fronteiras, sem cangas ou convencionalismos. José Mattoso, sublinha as dificuldades, matiza as diferenças e as ausências, mas oferece o Mundo, quase numa poética, mas não menos realista, palma da mão. Caberá a cada um de nós, através da nossa própria emoção, da nossa capacidade sensitiva, da nossa própria capacidade de conter e interiorizar, das nossas oportunidade, enraizar no tempo e no modo, em que estamos e somos agentes da História!
A História, sendo uma leitura ou muitas leituras do passado, pode e deve ser uma porta ou muitas portas para o Futuro!

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[1] Iglésias, Olga, “Curso de História – Introdução à História I –Preparação da Frequência e do Exame”, Lisboa, 2008, 2 pp.
[2] Mattoso, José, “A Função Social da História no Mundo de Hoje”, Colecção Estudos/Reflexões 2, A.P.H. – Associação de Professores de História, Lisboa, 1999, p.p. 5/22
[3] Vários Autores, “Grande Enciclopédia Universal”, Volume 13 (Malaxar – Molada), Durclub,S.A., Espanha, 2004, página 8542
[4] Escudero,Vítor, “A Interdisciplinaridade em História – História, Arte ou Ciência?”, Blogue “Apostar na História”, Lisboa, 2 de Dezeembro de 2008.
[5 ] Idem.
[6]
Idem.


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