25 outubro, 2008

O Paço Real de Sintra

Paço de Sintra, Duarte de Armas, 1509

«Entre todos os de Portugal, o Paço de Cintra, é o monumento que melhor synthetiza a sua história, desde o dominio sarraceno e da conquista christã até os nossos dias»

Foi entre a serra e o mar que cresceu a Vila de Sintra, recortada pelas magníficas chaminés do seu Paço Real.
Das origens do Palácio pouco se sabe, no entanto é certa a existência de um velho palácio árabe, que na era cristã, se tornaria num local de lazer para alguns dos monarcas da primeira dinastia, atraídos pelo clima fresco e caça abundante.
Mais tarde, já durante o início do reinado de D. João I, começaram as obras de construção do actual palácio.

Ilustração da Raínha D. Amélia 1897


«Quem sabe se a loira Filippa, saudosa dos frios e brumosos nevoeiros de Inglaterra, tisnada pelo sol ardente da Estremadura, ou cansada da paizagem torrada da leziria, não sentiu a atracção do glorius eden que o seu conterraneo, séculos depois, havia de cantar, e não induziu o marido a rehaver o Palacio, e a construir um monumento que ficou assignado pelo cunho da sua epocha?»

Foi durante a Dinastia de Avis que o Paço Real de Sintra atingiu todo o seu esplendor. Palco das brincadeiras dos infantes da "inclíta geração", foi naquelas salas que se começou a construir a base do império portugus com a planificação da tomada de Ceuta. Por lá também passaram alguns dos maiores nomes da cultura daquele tempo: Sá de Miranda, Gil Vicente, ou mesmo Camões, que segundo a lenda teria lido os Lusíadas a D. Sebastião no pequeno Pátio da Audiência.
Numa rápida visita ao Palácio destaco a Sala dos Cisnes, com um tecto magníficamente decorado por 27 cisnes em diversas posições, cada um ostentando um colar dourado ao pescoço. Logo a seguir a Sala das Pegas evoca a memória de todas as senhoras que falam do que não devem.
A Sala dos Brasões é talvez a mais famosa e a mais bonita e constitui a grande força de afirmação do poder real. No alto da cúpula estão as armas do rei, secundadadas pelas dos infantes e logo abaixo, setenta e dois brasões da mais notável nobreza da época. Logo a seguir a um pequeno corredorleva-nos ao quarto-prisão do infeliz D. Afonso VI. Descendo até à capela podemos admirar o lindíssimo tecto em madeira, notável exemplo da arte mudéjar. Finalmentre a visita termina na cozinha do Palácio onde se destacam os 33 metros de altura das chaminés e, logo à entrada os brasões do Rei D. Luís e de D. Maria Pia de Sabóia , com a inscrição: "Lusos às Armas, pela Fé, pelo Rey e pela Pátria."

«Vê-se passar allucinado, sonhando com a jornada de África, o corpo franzino do casto e abstémio D. Sebastião, Nun' Alvares da perdição, em cujo cerebro tremúla a pluma agitada do heroísmo. E lá em cima na estancia solitaria ouve-se o passo do infeliz Afonso VI gastando os ladrilhos...»

Citações a negrito, retiradas do livro; "O Paço Real de Sintra" da autoria do Conde Sabugosa, Lisboa, Imprensa Nacional, 1903.

24 outubro, 2008

Negócios da Índia: De pimenta ao Hélio-3

Justifica-se um país com tanta pobreza visível como a Índia que precisa de sustentar muitos milhões dos seus cidadãos que padecem fome meter-se em projectos lunáticos? Talvez. O processo de desenvolvimento no mundo globalizado não é tão linear como os defensores de missões de caridade nos queiram fazer crer. Os dinheiros que a Índia ou outro país em desenvolvimento não utilizar em projectos de adquirir força para dissuadir as intervenções interesseiras dos "ex-colonialistas e imperialistas" à cata de presas fáceis, nem estarão disponíveis para os proclamados fins altruistas!
Entre os principais objectivos da missão lunar indiana está a tentativa de detecção de hélio-3, um isótopo do elemento químico hélio bastante raro na Terra e que tem grande potencial energético. Calcula-se que 1,100,000 de toneladas métricas de He3 foram depositadas pelo vento solar sobre a superfíce lunar e devido às colisões com meteoritos muito desse He3 poderá ter sido empurrado para profundezas de alguns metros. Maior concentração se encontra nos mares lunares que constituem quase 20% da superfície lunar. Fornecimento de He3 para gerar energia na Terra pode resultar em receita de 300 bilhões USD anuais daqui a uns anos!

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22 outubro, 2008

Os avanços espaciais dos portuguesinhos


Portugueses vendem cortiça e bússolas à NASA

Não será isso uma repetição da sua tradição de comerciantes itinerantes (peddlars) da era pré- e pós-Descobrimentos? Os holandeses e os ingleses ultrapassaram os pioneiros portugueses com novas formas de fazer negócios e o resto que conhecemos é História. Bem falou o nosso Padre Vieira da História do Futuro. Podemos sempre continuar a viver com as esperanças do Quinto Império onde não haverá espaço para crises financeiras porque as especulações em derivados e futuros serão muito mais subtis e regulamentadas.


Fonte: http://tinyurl.com/5rya6s

Na pequena vila de Águas de Moura, no Alentejo, existe uma árvore que conquistou a agência espacial americana (NASA). Chama-se “Assobiador” e é o mais antigo e produtivo sobreiro do mundo. Tem 300 anos, 14 metros de altura e pertence à empresa Amorim Cork Composites, do empresário Américo Amorim, o mais rico de Portugal segundo o ‘ranking’ da revista “Forbes”. A cortiça que esta árvore produz – que pode ir dos 650 aos 1200 quilos, dez vezes mais do que a produção normal de um sobreiro – é fundamental para o revestimento de foguetões, satélites, sondas e ‘space shuttles’. “Resiste a temperaturas de dois mil graus, é um material muito leve e maleável e, mesmo quando entra em combustão, isso acontece de maneira muito lenta e sem perda de forma”, explica Alexandre Pereira, engenheiro da Amorim Cork Composites.

A cortiça tem, por isso, o perfil ideal para sobreviver a ventos solares, radiações cósmicas e amplitudes térmicas. Sabendo disso, o grupo Amorim viu na NASA uma oportunidade de negócio. Em 1995, comprou uma empresa americana, a GTS, que já vendia cortiça para a agência espacial. “É um bom cartão de visita. Se a agência utiliza a cortiça em veículos e missões espaciais, mais facilmente esses produtos serão usados pelas indústrias aeronáutica, ferroviária e naval”, explica Nuno Faria, director de marketing da empresa.

Por isso, o objectivo é estabelecer parcerias, como a que foi acordada em 2007 com a Airbus. As peças para a fuselagem dos aviões são feitas a partir da cortiça portuguesa. A Amorim Cork Composites facturou no ano passado 85,7 milhões de euros e, menos de um por cento deste valor, (aproximadamente 850 mil euros) veio dos negócios com a NASA. Com a agência espacial europeia (ESA), a empresa tem um projecto de investigação. “A cortiça ainda tem muito potencial para ser descoberto”, conta Alexandre Pereira.

Até chegar ao espaço, esta matéria-prima tem de passar por diversas fases de transformação. Depois de ser extraída dos sobreiros plantados na região do Alentejo é transportada em camiões para a fábrica da Amorim, na freguesia de Mozelos, em Santa Maria da Feira. A seguir, é colocada em máquinas trituradoras, para ficarem em pequenos grânulos. O produto final, que faz lembrar uma gigantesca duna do deserto do Sara, é guardado em armazéns e, posteriormente, embalado em volumosas sacas. “Por fim, partem em navios a caminho da nossa fábrica, nos arredores de Chicago. Ali, os grânulos são misturados com resina e transformados em placas próprias para o revestimento dos veículos espaciais”, conta Alexandre Pereira.

Boas notícias por e-mail

A NASA também gosta de surpreender. Em 1998, os co-fundadores da empresa Critical Software – Gonçalo Quadros, Diamantino Costa e João Carreira – receberam um email da agência espacial americana. Os três investigadores estavam a terminar o doutoramento em engenharia informática e a agência ficou fascinada com um programa criado por eles, o Xception. Antes de cada missão espacial descolar, este programa provoca milhões de falhas possíveis num sistema que, por exemplo, integra um satélite ou ‘space shuttle’. Isto significa que, quando estiverem em contacto com os ventos solar, radiações e outras dificuldades reais, os sistemas conseguem solucionar rapidamente os problemas. “O Xception permite a simulação de um conjunto infinito de falhas. Com isto, as agências espaciais evitam perdas humanas e gastos desnecessários de dinheiro, pois podem corrigir eventuais problemas ainda no solo”, explica Bruno Carvalho, responsável da Critical pelo desenvolvimento de negócios para a área do espaço.

Trabalhar com a NASA abriu muitas portas à empresa fundada pelos estudantes universitários. A instalação de uma filial em Silicon Valley, na Califórnia, era vital para a manutenção do negócio com os americanos. “O Xception é uma tecnologia de duplo uso: tanto serve para o espaço como para ser aplicado noutros mercados como a banca, energia, governo e defesa”, diz Bruno Carvalho. A Critical criou ainda outro projecto para a agência espacial americana, o Space Aqua.

“Permite verificar e validar a robustez de todos os módulos de software necessários a um sistema crítico, como os que integram as missões espaciais, garantindo que todos os componentes se encontram bem integrados”, acrescenta o responsável. As agências espaciais japonesa (JAXA) e chinesa (CSA) também se tornaram clientes destes produtos. Para a ESA, por outro lado, a Critical lançou um programa chamado PremFire, que através de imagens de satélite, também pode ser usado pela protecção civil e serviços de bombeiros na coordenação do combate e prevenção de incêndios.

A diferença de poder entre a NASA e a ESA é bastante significativa. A começar pelo orçamento. O da agência americana é de 9,6 mil milhões de euros/ano, ao passo que o da europeia é de 2,9 mil milhões de euros. Em relação ao investimento espacial per capita a discrepância é a mesma. Em média, cada cidadão de um país membro da ESA (17 Estados membros da Europa) paga, em impostos para gastos com os programas espaciais, o equivalente a um bilhete de cinema (5 euros). Nos Estados Unidos, o investimento em actividades espaciais por habitante é quase quatro vezes superior, perto dos 20 euros.

Uma bússola no espaço

Metade da facturação conseguida no ano passado pela empresa Edisoft, com sede no Monte da Caparica, na margem Sul do Tejo, chega do espaço. Esta empresa criou para a NASA um sistema de monitorização dos oceanos através da observação e recolha de dados por satélite. “Podemos seguir todos os passos de um navio que esteja em águas americanas. Calculamos ainda o rumo e a velocidade. Isto significa que todos os movimentos suspeitos são detectados, como descargas de crude ou entrada de materiais ou pessoas em alto mar”, explica Rodrigues Sousa, director da Edisoft.

A informação chega à agência espacial que depois a distribui por outros departamentos americanos como é o caso da Homeland Security – o departamento de segurança nacional. O mesmo sistema é usado nas missões dos foguetões Ariane 5, lançados pela ESA. A Edisoft, que supervisiona a Estação de Satélite Nacional de Observação da Terra, na ilha de Santa Maria, nos Açores, controla a trajectória do foguetão ao milímetro. “É por uma questão de segurança. Quando passa por Portugal sabemos tudo o que está a acontecer”, acrescenta o responsável da Edisoft.

Para que os satélites ou ‘space shuttle’ não fiquem confusos é preciso que haja orientação a bordo. A Lusospace, que fabrica magnetómetros (bússolas espaciais), sabe como isso se faz. “Permite saber a direcção do campo magnético à volta do satélite. Se está orientado para a Terra ou para o Sol. No fundo, estamos a fazer o mesmo que os antigos navegadores”, explica Ivo Vieira, o fundador da empresa. Para já, as bússolas estão instaladas em dois satélites de observação do planeta: um que tira fotografias e outro que mede a velocidade do vento. Outro dos projectos que já está concluído foi o de colocar no visor do capacete dos astronautas um sistema electrónico, que “permite dar informações gráficas sobre o campo de visão, a temperatura e os níveis de oxigénio”, diz Ivo Vieira.

É possível fazer mais e melhor nos negócios espaciais?