28 dezembro, 2008

No rescaldo das Festas

Afinal esta coisa da religião não é assim nada de especial, a avaliar por esta factura de uma reparação na Capela do Bom Jesus do Monte que um mestre de obras apresentou em 1852, conforme original arquivado na Torre do Tombo:

Por corrigir os dez mandamentos, embelezar o sumo sacerdote e pôr-lhe as fitas - 170 Rs
Um galo para S. Pedro e pintar-lhe a cara - 80 Rs
Dourar e pôr penas novas na asa esquerda do Anjo da Guarda - 120 Rs
Lavar o criado e o sumo sacerdote e pintar-lhe as suíssas - 160 Rs
Tirar as nódoas do filho de Tobias - 95 Rs
Uns brincos novos para a filha de Abraão - 245 Rs
Avivar as chamas do inferno, pôr um rabo no diabo e variados consertos nos condenados - 185 Rs
Renovar o céu, arranjar as estrelas e lavar a lua - 130 Rs
Compor o fato e a cabeleira de Herodes - 35 Rs
Retocar o purgatório e pôr-lhe almas novas - 355 Rs
Meter uma pedra na funda de David, engrossar a cabeleira de Saul e alargar as pernas de Tobias - 94 Rs
Adornar a Arca de Noé, compor a barriga do filho pródigo e limpar a orelha esquerda de S. Tinoco - 135 Rs
Pregar uma estrela que caiu do céu ao pé do coro, umas botas novas para S. Miguel e limpar-lhe a espada - 255 Rs
Limpar as unhas e pôr uns cornos ao diabo - 185 Rs
Total - 2244 Rs

Ao que parece estava tudo uma miséria...

23 dezembro, 2008

19 dezembro, 2008

Protocolo entre APH e ULHT

Protocolo de Cooperação entre a Associação de Professores de História e a Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologia (síntese):

A ASSOCIAÇÃO de PROFESSORES de HISTÓRIA (adiante designada por APH) e a UNIVERSIDADE LUSÓFONA DE HUMANIDADES E TECNOLOGIAS (adiante designada por ULHT), partilham a intenção de promover a qualidade do ensino e a divulgação da História nas suas amplas vertentes culturais, patrimoniais e artísticas, económicas, sociais e políticas e, nesse sentido assinaram um protocolo de cooperação a 22 de Março de 2005. A APH referenciará a ULHT em todas as publicações, reuniões científicas, estudos, projectos, eventos e páginas Internet que envolvam directa ou indirectamente algum dos professores da ULHT e/ou a utilização dos resultados de investigação ou das tecnologias de informação histórica ou outras afins cedidas pela ULHT; divulgará todas as iniciativas conjuntas desenvolvidas em parceria nas suas páginas da Internet e por outros meios de comunicação e marketing. Apoiará ainda a concepção, produção e divulgação de material ou eventos dirigidos às escolas, ou aos professores de História, relacionados com o ensino e a investigação promovidos no âmbito do curso de licenciatura de História, Mestrado em História Política, Económica e Social Lusófona, Mestrado de Formação de Professores de História e de Geografia e projectos de investigação do Centro de Estudos de História Comparada da ULHT. A ULHT proporcionará à APH o apoio na concepção e produção de material para as escolas relacionado com as problemáticas intrínsecas aos seus processos de ensino e de investigação; o poio logístico para a realização de eventos comuns, com destaque para a cedência de espaços equipados; a promoção de iniciativas bilateralmente acordadas tendo em vista a prossecução dos objectivos comuns das duas entidades, com destaque para a realização de acções de actualização e aprofundamento científico nos domínios teóricos e técnicos pertinentes para a formação contínua dos professores.

Introdução à Genealogia e Heráldica




SEMINÁRIO DE GENEALOGIA E HERÁLDICA
Curso (I) de Introdução à Genealogia e à Heráldica


PRESS RELEASE


Vai realizar-se durante o presente ano lectivo um Curso de Introdução à Genealogia e Heráldica organizado pelo Curso de História na ULHT.

O Seminário de Genealogia e Heráldica é uma unidade de ensino e investigação destinada fundamentalmente aos alunos das licenciaturas e mestrados em História, Ciência Política, Sociologia e Estudos Europeus.

São admitidos outros alunos da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, bem como da Escola de Comunicação, Artes e Tecnologias da Informação cujos projectos de trabalho ou investigação se relacionem com os temas que são habitualmente trabalhados no âmbito do Seminário.

Excepcionalmente poderão ser admitidos, em regime de curso livre, participantes não vinculados à ULHT que apresentem projectos de trabalho, directamente relacionados com os objectivos do Seminário.

O preço da inscrição no regime de curso livre para os externos será de € 50. Os interessados deverão inscrever-se até ao dia 6 de Janeiro 2009 junto do secretariado da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, Campo Grande, nº 376, em Lisboa, ou contactando o mesmo pelos meios habituais.

O Seminário terá o seu início em 10 de Janeiro, Sábado às 10h. e com duração de 5 sessões de 3 horas cada em 5 Sábados sucessivos.

Telefone para inscrição: 217 515 530
ou
Magda.Cruz@ulusofona.pt
mailto:Ana.Mourinho@ulusofonfa.pt

17 dezembro, 2008

O que é a Verdade Histórica?

- A Escrita da História…

A partir dos anos setenta, do século XX, as teorias sobre a historiografia atingem um ponto de não retorno, sobre tudo o que se havia dito, escrito ou especulado, durante os últimos três quartéis, desde logo sublinhando o abandono das teses e posições marxistas[1] da história e avançando com uma nova tendência, profundamente marcante e inovadora, no que vai destas três últimas décadas.
Esta nova corrente, ou escola, segue os passos da crítica pós-moderna, assumindo e evidenciando as fragilidades e incongruências das ideias uniformizadoras e estanques dos modelos até então usados.
Assim, não é de estranhar que na historiografia mais recente, um pouco à imagem de outras ciências sociais, como a antropologia e a filosofia, a importância e a influência multidisciplinar da análise da linguagem e da escrita e a relevância da diversidade cultural matizem as grandes linhas de pensamento, de acção, de investigação e de fazer uma nova história.
O novo discurso historiográfico, em consonância, com a heterogeneidade da nova corrente de pensamento, permite novos olhares, novas perspectivas, novas análises e novas reflexões. Permite construir e desconstruir, na base de uma teoria da própria linguagem e da sua representação, enfocando a não diferenciação entre a realidade e a linguagem.
Mais, a pertinência objectiva da história, em plena época da globalização, com excesso de fontes e dados, informações em real time e profusão de pontos de vista, sempre disponíveis e à mão do investigador, leva-nos a uma incessante busca da verdade, em detrimento das descobertas.
Não é pois de estranhar que a super especialização, também ao nível da historiografia, deixe marcas…daí que tenham surgido, a microhistória e a nova história. Novas páginas, consagradas pela “ciência história sócio-cultural”, tese e expressão divulgadas pelos trabalhos de Christopher Lloyd (1996), que contemplam uma assunção da História como ciência e arte “integradora dos factores de constituição da identidade subjectiva e objectiva dos agentes racionais humanos, individual e colectivamente” [2].
Em Portugal, paradigma do pensador e do investigador desta nova corrente, o Professor José Mattoso, brindou-nos com alguns dos textos teorizantes, mais felizes e acessíveis, talvez por serem dirigidos a não historiadores [3].
Desde logo, porque defende a prática da lógica, para a efectiva produção de um discurso rigoroso, consistente e coerente e adopta de forma simplificada ou simplista a conceptualização das outras ciências sociais e humanas como referência para as suas próprias investigações, sem grandes divagações pelo aprofundamento filosófico dessas mesmas noções conceptuais.
Segundo José Mattoso, para a elaboração do discurso histórico há que ter presente três etapas decisivas: a leitura e exame racional do passado, através das fontes ou marcas; a representação mental que daí resulta; e, a produção de um texto, escrito ou oral, que permite emitir uma comunicação com os demais.
Na primeira etapa, há que haver contenção e uma selecção, tendo em atenção a relatividade, a globalidade e a contemplação, pois muitas vezes o “objecto da História não é o facto em si mesmo, mas o que ele eventualmente possa representar para o destino da Humanidade”. É, ainda, Mattoso, quem nos aconselha a um olhar “mais atento, mais lúcido e mais apaixonado” e, acrescenta… “muita atenção e muita imaginação para não esquecer todos os factores que interferem na História”.
Na segunda fase, há que verbalizar um reconhecimento, admirativo e emotivo, uma apreensão harmónica do real, uma comunhão total da ordem estabelecida na vastidão da acção e pensamento humanos.
Na terceira e última etapa, importa o veículo entre a emissão e a recepção, interessa a comunicação. E, essa comunicação, a par do seu conteúdo científico, tem que ser escrita de forma apaixonada, poética, literária, pois só assim, pode descrever essa ordem encontrada e essa grandeza e fascínio do passado.
Mas, em jeito de conclusão, sobre a verdade da história e a escrita da história, José Mattoso, faz sublinhar que, independentemente do papel importante e decisivo do historiador e da historiografia, a verdadeira pedra de toque de todo o processo da revelação e da transcendência da realidade da história é o momento mágico e irrepetível em que cada um de nós é tocado pela história, o que muitas vezes passa, pelo próprio silêncio e ausência de indicadores exteriores, bastando-nos, a nossa própria sensibilidade, a nossa íntima convicção, a nossa emoção, a nossa contemplação, a nossa própria capacidade de olhar, de observar e ver e a nossa própria maneira de estar e de ser agentes da História.

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[1] Rezende Martins, Estevão de, “História”, Crítica:Revista de Filosofia e Ensino, Universidade de Brasília, 30 de Agosto de 2004.
[2] Idem.
[3] Mattoso, José, “A Escrita da História”, Conferência realizada na Faculdade de Ciências e Tecnologia da universidade Nova de Lisboa, 22 de Outubro de 1986.

16 dezembro, 2008

Museu e Arquivo da Presidência da República

No âmbito da disciplina de Introdução à História (Curso de História, ULHT), foi elaborada uma visita de estudo ao Museu e Arquivo da Presidência da República, situado no Palácio de Belém, no dia 13 de Dezembro de 2008.
Recordando um pouco o passado deste Palácio ...
O Palácio de Belém, que é todo cor-de-rosa, fica situado no meio de grandes jardins e em frente ao rio Tejo, de salientar, que antigamente o rio tinha a margem mais próxima do que a actualidade. Este fabuloso jardim chama-se Jardim do Buxo.
Foi construído no séc. XVI, ano de 1559, pelo fidalgo D. Manuel de Portugal e, pertenceu a diferentes pessoas que o foram modificando ao longo dos tempos e de acordo com as suas necessidades.
No século XVIII, D. João V que enriquecera com o ouro proveniente do Brasil, comprou-o ao conde de Aveiras, tendo-o alterado radicalmente. Acrescentou-lhe uma escola de equitação (as cavalariças são hoje o esplêndido Museu Nacional dos Coches) e adaptou o interior para poder fazer as suas conquistas amorosas com discrição.
Com a Implantação da Republica o Palácio de Belém passa a ser a residência oficial do Chefe de Estado. É aqui que o Presidente tem o seu gabinete de trabalho e recebe várias pessoas da vida política, económica e social.
A entrada no palácio faz-se pela rampa do Pátio dos Bichos. Ao fundo do pátio encontra-se um muro com uma fonte e várias portas gradeadas que foram, em certa época, ocupadas por animais selvagens provenientes de África, esses animais eram oferecidos aos reis.
Na escada de acesso à Sala das Bicas podemos ver o pórtico de pedra e os vitrais das janelas posteriormente introduzidas. Esta sala chama-se assim por ter ao fundo duas bicas que deitam água para umas bacias de pedra. Possui bustos de jaspe representando imperadores romanos, um enorme lustre de bronze, reposteiros em cor escura com o escudo de D. João V e o tecto de madeira pintado.
Esta sala também dá acesso à zona reservada do Presidente, que se situa na parte mais antiga do Palácio.
Seguidamente, passámos ao corredor que serviu de Galeria dos Retratos dos anteriores Presidentes da República. Hoje, esses retratos pintados a óleo sobre tela, estão expostos no Museu da Presidência da República. Neste momento esta exposta bustos de imperadores romanos e alguns presépios em miniatura. Esta decoração data o séc. XVIII.
À direita da Sala das Bicas fica a Sala de Jantar construída no século XVI por D. Manuel de Portugal. Houve um período (1980-1985) em que esta sala serviu de museu expondo os presentes oferecidos ao Presidente Ramalho Eanes. Posteriormente voltou à sua função de sala de refeições para convidados.
A Sala Dourada comunica com o primeiro dos três salões da zona nobre do Palácio - concebido no tempo de D. Manuel de Portugal. O sumptuoso tecto da Sala Dourada foi executado no século XVIII, tem uma pintura central alegórica e quatro medalhões nas quadras, rodeados de uma profusão de ornatos de talha dourada. Nela pudemos observar uma peça de museu fascinante – Relógio de Auguste Moreau ( Francês).
Por trás da Sala Dourada existe uma pequena capela onde foram baptizados o Rei D. Manuel II e o seu irmão, o príncipe Luís Filipe, e, ainda, Miguel, o segundo filho do Presidente Ramalho Eanes. Neste momento estão expostos 8 quadros pintados a pastel da autora Paula Rego, retratando os momentos mais importantes da vida da Virgem Maria.
Continuando, passamos à Sala Império, conhecida assim, por estar decorada com móveis desse estilo. Encontra-se também um quadro de grandes dimensões, que contém um elemento curiosamente semelhante ao existente no centro do tecto pintado: um medalhão de D. João VI. Este tecto simboliza D. João VI a ser condecorado, aparecendo como salvador da pátria.

Segue-se a Sala Azul, também chamada Sala dos Embaixadores. O deslumbrante tecto pintado, foi em tempos muito mais rico e elaborado. Actualmente, aqui se realizam as tomadas de posse individuais de membros do Governo.

É pelo Pátio das Damas que se faz o movimento geral do palácio, sendo visível o pouco de preservação do tempo de D. Manuel de Portugal. Actualmente o pátio está limitado, à esquerda de quem entra, pelas traseiras do Museu dos Coches (antigo picadeiro), ao fundo pelo muro do Jardim de Buxo e pela ala nascente do palácio e à direita pelo Palacete construído no início do século XX pelo Rei D. Carlos, para alojar as comitivas dos visitantes oficiais. Foi então que foram derrubadas as velhas construções, ampliado o pátio e aberto um portão para a Calçada da Ajuda.

Meus agradecimentos à professora Olga Iglésias por nos ter guiado no conhecimento deste grandioso e deslumbrante Palácio de Belém.

Filipa Carvalho

O que é a História?

- Que Ciência Social hoje?

Todos nos lembramos das histórias de embalar com que a nossa meninice e infância foram rodeadas daquela áurea mágica e mítica que nos transportava a outros tempos de fantasia, sonho e revisitação. A história, o contacto com a História, começa daquela necessidade de que quase todos temos de ouvir as estórias das avós e das tias-avós, à lareira de inverno ou nos finais de tarde de verão em que, longe dos pais, rumávamos a uma província ainda bem característica e típica, dos meados do século passado, naquele misto de descoberta e reeinvenção de um passado comun em que as nossas próprias raízes se confundiam com as matrizes culturais da aldeia, dos nossos vizinhos, dos nossos parentes remotos e dos nossos próprios maiores.

Foi assim que me iniciei na apaixonante descoberta da outra história, a Grande História, aquela História que se desenvolve, prioritariamente, pela actualização constante e contínua das vivências conscientes e racionalizadas do Homem ao nível da evolução cultural, da realidade quotidiana e da reflexão filosófica; e, pela História que, consequentemente, é alicerçada pelas observações, registos, opções, métodos, práticas e investigação e que constitui a Ciência Histórica. Uma ciência que nos ajuda à reconstrução, reflexão e análise do passado, individual, grupal ou social, com base em ideias e práticas convencionadas, para uma uniformização do controle das fontes, das interpretações, das explicações e da estruturação dos argumentos, vistos à luz de um determinado e delimitado período de tempo, objecto de observação.

Em suma, a história estuda o tempo passado. A palavra, sem grandes investigações, vem-nos do grego, ou melhor da língua grega e significa ‘inquérito’…daí que, em muitas ocasiões, se afirme, com alguma propriedade que, tal como o detective, o trabalho primordial do historiador seja a investigação, a examinação de todos os indícios possíveis, sem excepção, tais como monumentos, textos, armas, moedas, roupas, ourivesaria, etc…, tudo quanto possa ajudar a reconstruir a vida do homem num determinado período do nosso passado colectivo.

O termo ‘história’, pode então remeter-nos para três sentidos ou significados, relacionados, mas individualmente distintos: o primeiro é o da abordagem da história, enquanto conjunto de acções e práticas humanas, assumidas por razões e decisões, ocorridas num tempo passado; o segundo é o da sistematização e constituição do conhecimento científico de partes comuns desse grande fresco que é a história como tempo passado, hoje em dia já vulgarmente designada por ciência histórica ou história como ciência; e, como não poderia deixar de ser, o sentido com que caracterizamos o acervo produzido pela ciência histórica, a que damos genericamente o nome de historiografia, seja ela escrita (livros), seja ela visual (filmes e documentários).

Embora não se possa afirmar que a história é uma disciplina recente, bem pelo contrário, a verdade é que a história enquanto Ciência Social, mereceu depois da segunda guerra mundial, um forte impulso e, sobretudo, a historiografia foi alvo de um progresso sublinhado, apenas matizado, pela aparente ausência de uma matriz disciplinar, essencial e determinante ao desenvolvimento global da historiografia como investigação social, independente, auto-suficiente, coerente e coesa.

De facto, no século XX, a história, enquanto ciência, tem dois grandes períodos qualitataivos e quantitativos, em termos de grandes linhas de pensamento, análise, reflexão e produção. Um determinado no tempo pelo período entre as duas guerras, durante as décadas de vinte e de trinta; e o outro, já depois da segunda grande guerra, a partir dos anos cinquenta. Comparativamente, a ciência histórica, evoluiu muito mais no século XX do que no século anterior, podendo-se caracterizar esta evolução pela renovação e redefinição contenporãnea das escolas de observação, sitematização e registo. Contudo a mudança gigantesca e decisiva de mentalidades do séc XIX – com propriedade chamado o ‘século da história’! -, consagra uma nova página do estudo científico da história, permitindo até que a este estudo científico, prestem as suas colaborações outras das grandes linhas das chamadas ciências sociais e ciências auxiliares da história, então emergentes.

Não esquecer que outro factor decisivo, para o salto da história enquento ciência e ao surgimento de abundante historiografia, é o do aparecimento de uma corrente de pensamento que se chamou de positivismo a par da corrente tradicionalista do historicismo alemão.

Mas tudo está ainda em aberto, pois que, como ciência viva, todos os dias, recebemos novas informações que nos ajudam a equacionar cada vez mais de perto e com um olhar mais preciso e acutilante, mais crítico, também, tudo quanto nos é apresentado pelo passado.

15 dezembro, 2008

A Função Social da História no Mundo de Hoje

- Uma visão e uma interpretação pessoais.

Analisar e interpretar, com uma visão pessoal, a reflexão do Professor José Mattoso sobre A Função Social da História no Mundo de Hoje, constitui um dos quinze objectivos [1] específicos do programa da disciplina de Introdução à História – I, do Curso de História, da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, da Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, durante o presente ano académico de 2008/2009.
Assim, é natural que, de um ponto de vista personalizado, com base na leitura efectuada [2], nos seja dada a oportunidade de defender a tese, sobre algumas das mais pertinentes, lúcidas e actuais páginas da teorização moderna sobre o real papel e a função social da História nos tempos que nos coube em sorte viver e nos quais o insigne Professor José Mattoso, figura de Mestre e de Sábio que, como autor e investigador da historiografia contemporânea portuguesa, é um dos mais preclaros precursores.


Quem é José Mattoso?

Aqui, convirá abrir um parêntesis e saber mais sobre a vida e obra do cantado e analisado autor.
José João da Conceição Gonçalves Mattoso, nasceu em Leiria, no ano de 1933 [3]. Do ponto de vista genealógico, sabemos que é filho de António Gonçalves Matoso, também investigador e autor de temas históricos, nomeadamente dos célebres compêndios de História, do ciclo liceal, então aprovados pelo Ministério da Educação, do período do chamado Estado Novo e que acompanharam várias gerações de estudantes do ensino médio.
José Mattoso, professou como monge beneditino, no Mosteiro de Singeverga, tendo adoptado o nome religioso de Frei José de Santa Escolástica Mattoso e, ainda, como membro da província portuguesa desta ordem secular, doutorou-se em História Medieval – com a defesa da tese “Le Monachisme Ibérique et Cluny: Les monastéres de la Diocése du Porto de l’an mille à 1200”-, pela Universidade de Lovaina, no reino dos belgas, em 1966.
Em 1970, obteve a redução ao estado laico e entra como docente universitário na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Em 1978, integra como docente e investigador a Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, da Universidade Nova de Lisboa. Foi investigador do Centro de Estudos Históricos da Universidade de Lisboa; foi o primeiro presidente (1980-1981) do efémero Instituto Português de Arquivos; desempenhou o cargo de Magnífico Vice Reitor da Universidade Nova de Lisboa; e, em 1996, foi nomeado presidente do Instituto dos Arquivos Nacionais da Torre do Tombo, cargo que abandonou em Janeiro de 1998, tendo tido um assinalável e reconhecido trabalho de uma notável reorganização daqueles tão importantes serviços públicos nacionais.
A sua investigação centra-se, sobretudo, na História Medieval e, dentro deste período, na história monástica, na história da nobreza, da cultura e das mentalidades. Para lá de ser muito considerado como um dos grandes medievalistas portugueses do nosso tempo, não é menos verdade que José Mattoso, se tem distinguido como um dos mais expressivos e profícuos teorizadores da história e da historiografia mais recente.
Nesta condição, a José Mattoso é apontada a paternidade de “algumas das mais significativas páginas da teoria crítica moderna e do pós-modernismo”[4] e, consequentemente, é considerado como uma “incontornável figura de autor e investigador da historiografia contemporânea portuguesa, de que é um dos mais preclaros paladinos”[5] .
“Em ruptura com o modernismo (corrente literária, musical, artística, arquitectónica, cultural, etc… contra o classicismo, a favor da estética, que corresponde ao final do século XIX e perdura até à II Grande Guerra Mundial), com o chamado modernismo histórico, onde sobressaiem Alexandre Herculano e Oliveira Martins, os pós-modernistas, de que é figura emblemática o Professor José Mattoso, estabelecem uma nova filosofia ou teoria de escrever a História”[6] .
Poderemos com propriedade falar de uma teoria ou conceito da História que é, ao mesmo tempo e em si mesma, uma assunção ecléctica de saberes e experiências – a Nova História!
Em 1985, José Mattoso, recebeu o Prémio de História Medieval Alfredo Pimenta (célebre medievalista e polemista, monárquico e salazarista, cujos textos doutrinários, muito controversos, fizeram estória nos anos anteriores ao fim do regime personalizado no Doutor António de Oliveira Salazar); mais tarde recebeu o Prémio de Ensaio do Pen Clube; em 1987, o primeiro Prémio Pessoa, atribuído pelo semanário “Expresso”; e, em 1991, o Prémio Internacional de Genealogia Bohus-Szogyeny, atribuído pela Academia Internacional de Ciências Genealógicas.
No ano passado, José Mattoso foi, também, distinguido com o Troféu Latino 2007, atribuído pela União Latina, em reconhecimento pela sua trajectória profissional, pela sua obra no campo da investigação histórica mas, sobretudo, pelo seu relevante contributo na definição e reconhecimento da identidade portuguesa e da sua componente cultural latina nas raízes europeias.
Já depois da independência, do Estado de Timor-Leste, José Mattoso, colaborou na recuperação e organização do Arquivo Histórico Nacional, do Arquivo da Resistência e, como docente, leccionou aulas das disciplinas da História da Igreja e de História da Filosofia Medieval, no Seminário Maior de Díli.
Hoje em dia, apesar de muito activo, José Mattoso, vive nas crestadas planícies do baixo alentejo, onde encontra a paz e a tranquilidade para uma mais eficaz investigação e coordenação de inúmeros projectos editoriais de que assumiu a direcção e, em alguns casos, a própria autoria.


Bibliografia de José Mattoso
– Alguns Subsídios…

Reconhecido em Portugal e além fronteiras, pelo seu trabalho e extensa obra de grande alcances, José Mattoso, é autor, entre outros títulos, de: Ricos-Homens, Infanções e Cavaleiros (1982), sobre alguns aspectos sociais de um dos três estados da sociedade medieval – a Nobreza; Fragmentos de uma Composição Medieval; Identificação de um País. Ensaio sobre as Origens de Portugal 1096-1325 – Volume I “Oposição” e Volume II “Composição” (1985), com mais quatro edições sucessivas, sempre revistas e constantemente actualizadas, na década subsequente; as colectâneas de artigos A Nobreza Medieval Portuguesa. A Família e o Poder (1981); Religião e Cultura na Idade Média Portuguesa (1982); Portugal Medieval Novas Interpretações (1985); e, A Escrita da História – Teoria e Métodos (1988). Dirigiu, ainda, a História de Portugal, editada entre 1993 e 1994, em oito grossos volumes, da Editorial Estampa (e, também, do Círculo de Leitores), cujo último exemplar se dedica já à história recente, que medeia entre os anos de 1974 e 1985. Nesta obra monumental, para lá do papel de direcção geral, assumiu a coordenação e autoria dos volumes respeitantes à sua área do saber, interesse e especialização.


A Função Social da História…

Enquadrado o autor e apresentados, sem cuidados de exaustão, alguns dos seus títulos mais significativos, de forma a melhor compreender o verdadeiro alcance das suas ideias e teses sobre qual a função social da história no mundo de hoje, em geral, e em Portugal, de forma mais particular, convirá agora que nos detenhamos na nossa interpretação da conhecida análise de José Mattoso, subscrita num texto que serviu de base à comunicação apresentada na abertura do ano académico de 1998-1999, a 15 de Outubro de 1998, da licenciatura em História, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, da Universidade Nova de Lisboa.
Numa leitura em diagonal e sem grandes devaneios, poderemos sem problemas de maior definir que o tema central deste texto é uma reflexão bem alicerçada, em sábios conhecimentos, teóricos e experimentados, anos de prática bem vivenciados – como a curiosa estória do filho do capitalista que estava a fazer a licenciatura em História, para depois na sua vida profissional ser gestor dos bens familiares, evidenciando que o curso de história, lhe dava uma amplitude de conhecimentos e uma valência transversal de conhecimentos essenciais no seu futuro – e, um profundo conhecimento do seu tempo, da sociedade em que se sente envolvido, da realidade sempre em mudança e do mundo mais global em que se insere. Ao fim e ao cabo, José Mattoso, desfia um largo conjunto de ideias, teses, confrontações, paralelismos, experiências, memórias do que foi, é e poderá vir a ser o papel activo e a utilidade prática do estudo, da investigação e de uma licenciatura em História, na sociedade contemporânea, na ponta final do século XX.
Num texto, muitíssimo bem escrito, em correcto português, bem definido por uma clara coluna vertebral de ideias e de um harmonioso e cadenciado patamar de sucessivas interligações ou interpenetrações com o mundo real em que o historiador, profissional ou não, o licenciado, o aluno ou o simples curioso da história, se confronta quotidianamente, este texto merece que nos detenhamos num conjunto de tópicos que nos suscitam maior detalhe:

- A necessidade de auto-estima, de uma interiorização das verdadeiras capacidades, competências e valências individuais;
- O conhecimento em detrimento da autoridade;
- Comparação quantitativa da produção e edição histórica, durante três décadas ( anos 60 e finais de anos 90 ), onde se regista um assinalável crescimento qualitativo;
- Variedade e diversidade de oferta: congressos, seminários, cursos livres, edições, comemorações, etc…;
- Projecção Cultural, Económica, Social e Política da História;
- Empregabilidade e Estabilidade Profissional do Licenciado em História;
- Validade, Desenvolvimento e Polivalência da Licenciatura;
- Multidisciplinaridade e Interdisciplinaridade da História;
- Descentralização e Desburocratização;
- “Gosto pela História”, versus “Vocação para a Investigação”;
- Ausência de Centros de Investigação em Ciências Humanas;
- Empreendedorismo e Massa Crítica;
- Relativização das ideias, dos conhecimentos, das crenças, das ideologias e das doutrinas;
- Preservação da Memória, Identidade, Sobrevivência e Soberania;
- Dimensão Espacial e Temporal da Complexidade Social da História;
- Confiança em mais e melhores oportunidades;
- Optimismo em mais e melhor Futuro!

Se tivermos em atenção que este texto, já com dez anos, foi assinado antes da Declaração de Bolonha, poderemos com toda a propriedade afirmar que ele não só foi precursor das suas teses fundamentais – competências, capacidades, valências, transversalidade, multidisciplinaridade, interdisciplinaridade, mobilidade, mercado, diversificação de empregabilidade – como está, cabalmente, dentro do “espírito de Bolonha”!


Qual é a Tese do Autor?

Em breve e pessoalíssima conclusão, poderemos dar como tese do autor, a mensagem de optimismo militante com que José Mattoso exorta os jovens estudantes de História, a alargarem horizontes, estabelecerem pontes, aproximarem visões, compararem leituras, experimentarem e ousarem, sem tibiezas, sem fronteiras, sem cangas ou convencionalismos. José Mattoso, sublinha as dificuldades, matiza as diferenças e as ausências, mas oferece o Mundo, quase numa poética, mas não menos realista, palma da mão. Caberá a cada um de nós, através da nossa própria emoção, da nossa capacidade sensitiva, da nossa própria capacidade de conter e interiorizar, das nossas oportunidade, enraizar no tempo e no modo, em que estamos e somos agentes da História!
A História, sendo uma leitura ou muitas leituras do passado, pode e deve ser uma porta ou muitas portas para o Futuro!

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[1] Iglésias, Olga, “Curso de História – Introdução à História I –Preparação da Frequência e do Exame”, Lisboa, 2008, 2 pp.[2] Mattoso, José, “A Função Social da História no Mundo de Hoje”, Colecção Estudos/Reflexões 2, A.P.H. – Associação de Professores de História, Lisboa, 1999, p.p. 5/22[3] Vários Autores, “Grande Enciclopédia Universal”, Volume 13 (Malaxar – Molada), Durclub,S.A., Espanha, 2004, página 8542[4] Escudero,Vítor, “A Interdisciplinaridade em História – História, Arte ou Ciência?”, Blogue “Apostar na História”, Lisboa, 2 de Dezeembro de 2008.[5 ] Idem.[6] Idem.

SEM TÍTULO

Os heróis existem, mas não tanto para, por si sós, salvarem o mundo. Sou da opinião que eles nos sirvam, com os seus actos, de referência, de exemplo, para que não desistamos de uma luta contra o "mal". Mesmo assim o conceito de "mal" é subjectivo, o que torna ainda mais esta luta uma espécie de luta do puto contra o duende, personificada também por mim, quando em miúdo lutava contra duendes invisíveis, que tinha que derrotar antes de dormir, para que o sono fosse sossegado. Eu derrotava-os mas eles voltavam todas as noites, noite após noite. Um dia deixaram de aparecer, eu sei, mas tenho a certeza que foram molestar outra criança. Afinal estes duendes são tão antigos como a nossa existência. Os "maus" sempre foram contemporâneos nossos.
Ontem falei com o meu "amigo" napolitano. Eu já suspeitava de alguma coisa, mas ontem confirmei os meus receios. As conversas que tivemos no País Basco, abertas, sem tabus, deixaram de existir. Têm que deixar de existir, não por minha vontade e não pela dele, decerto, mas por causa de forças do mal que existem na cidade onde vive.
Quando lhe pedi o e-mail, um destes dias, deu-me o da mulher; quando, numa outra ocasião, lhe falei do "tal" livro que me havia recomendado, pareceu fugir ao assunto; hoje perguntei-lhe se podíamos falar de tudo, ao telefone. Fingiu não entender a pergunta e passou-me à mulher pernambucana.
-Queria perguntar ao teu marido se podemos falar ao telefone de tudo, sem problemas, ou se não devemos falar de algumas coisas. Por causa livro, sabes?
-Melhor não, Pedro-respondeu-me a esposa do napolitano.
-Ok, entendi, passo-te a minha mulher-disse-lhe, não sem alguma emoção.
Quando quisermos conversar sobre "certos assuntos" terá que ser em Vitória, em Lisboa, em Amsterdão...
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A minha mãe afinal vai à Índia e até vai estar um dia em Mumbai. Quer muito ir, o marido também, e, a "desculpa" é que:
-Oa problemas na Índia vão-se agudizar, ou vamos agora ou nunca mais...
Boa, mãe, boa desculpa. O que eu acho é que nunca sabemos onde elas vão cair, a verdade é essa. Sabemos, sim, que quando elas caem constantemente ali ou acolá, podemos evitar esses locais. Agora terrorismo? Não mãe, não podemos nunca saber onde e quando vai acontecer e por isso é tão perigoso ir como ficar; é tão perigoso adiar como antecipar. É igual, mãe.
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Em Marrocos, assisti por um par de vezes alguém recomendar comedimento a outro mais atrevido no grupo em confraternização. A música era "perigosa", a letra dizia mal do rei. Alguém podia ouvir...
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Está a passar na tv um documentário sobre a mulher apedrejada até à morte, no Afeganistão, por aultério. Uma chapada, até talvez a pobre mulher merecesse...

12 dezembro, 2008

Itália e Portugal, Sabóias e Braganças

- O Renascimento e os Descobrimentos!

Itália e Portugal, grandes países do sul da Europa ou do Mediterrâneo do Norte, nem sempre foram estados-nação como hoje os conhecemos e são reconhecidos internacionalmente. As suas histórias, os seus passados, as suas culturas, as suas maneiras de estar e de ser, os seus Povos afirmaram-se e projectaram-se no Mundo com uma filosofia e uma estratégia onde o Sonho, a Aventura, a Fé e o Humanismo consubstanciaram realidades e trajectórias distintas.
Em paralelo grandes projectos, grandes viragens históricas, eloquentes páginas de mudança e vanguardismo, grandes movimentos criativos de pensamento e acção e um denominador comum – a emotiva e quase sensual atracção pela Arte e pelo Belo!

Duas páginas ímpares da História Mundial foram escritas por Italianos e Portugueses e, só estes as poderiam ter assinado por maioria de razões, pois foram realizações, notáveis e grandiosas obras de gerações, onde à Razão se sobrepôs o Coração!
Dando “novos mundos ao Mundo”, surpreendendo e espantando o velho Mundo, Itália e Portugal, ficarão para a posteridade inquestionavelmente ligados, respectivamente, ao Renascimento e aos Descobrimentos! E, com estes enormes e revolucionários acontecimentos e movimentos, durante muito tempo Itália e Portugal, marcaram uma época, um rumo e um futuro. Garantiram, por assim dizer, o seu lugar no Olimpo dos transcendentes feitos e épicas epopeias.

Como naqueles tempos, as caravelas portuguesas, levavam mensagens de Fé, de Esperança e de Fraternidade, também hoje nos sentimos impelidos a trazer até Vós uma renovada ideia de um Futuro de melhor e maior bem estar para Todos quantos acreditam com Fé e Esperança na perpetuação de Valores perenes e ancestrais, os mesmos Valores que os nossos Maiores e os Maiores dos nossos Augustos Reis, conseguiram levar na evangelização e pacificação dos Povos da África, das Índias Orientais e das Novas Américas.

Contudo, para que esta noção de grandeza e, ao mesmo tempo, de despojamento ecuménico, fosse uma realidade, as velhas monarquias feudais sofreram transformações, mutações, sociabilizações, consolidações e protagonismos a que não serão estranhos verdadeiros líderes ou chefes que, com as suas particulares características e as suas peculiares circunstâncias romperam com a ordem estabelecida e criaram pela espada e pela cruz uma nova ordem, novos estados, novos reinos, novas dinastias e, mais do que isso…novos Mundos!

Itália e Portugal, também unidos por laços duradoiros, reais matrimónios, contratos dinásticos, excelentes relações diplomáticas, acordos políticos, económicos e culturais, que aproximaram gerações das Famílias Reais de Sabóia e Bragança, souberam consolidar correntes de pensamento e acção, que se perpetuam ainda hoje nas reais pessoas de Sua Alteza Real o Príncipe Vittorio Emanuele, Duque de Sabóia e de Sua Alteza Real o Senhor D. Duarte João, Duque de Bragança.

No tempo e no modo, fica a memória e a saudade de um grande chefe de estado português, de um soberano marcante, de um cientista e um artista reconhecido internacionalmente, de quem se evocam a vida e a obra e comemora este ano o centenário do seu trágico e bárbaro assassinato – Sua Majestade o Senhor D. Carlos I, um Rei que antes de o ser, já o era, numa alma nobre e num coração bom, onde se cruzavam o sangue italiano dos Sabóia e o sangue dos antigos e reais Braganças!

11 dezembro, 2008

Vitória, Nápoles, Mumbai...

Terrorismo:
sistema de governar pelo terror e com medidas violentas;
actos de violência praticados contra um governo, uma classe ou mesmo contra a população anónima, como forma de pressão visando determinado objectivo;
forma violenta de luta política com que se intimida o adversário;
modo de impor a vontade por meio da violência e do terror.
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Eu sei que o terror tem novas caras, mas ele sempre existiu. Mas nós não, nós nem sempre existimos, e por isso mais facilmente falamos, ou mais facilmente somos tentados a falar, do presente, do que vemos, ouvimos ou/e sentimos.
Fui a Vitória, no fim de semana passado. Vitória-Gasteiz, mais correctamente escrevendo. Vitória é linda, moderna, com uma parte antiga cheia de história, bem conservada. A vitória sobre os franceses, aquando das maldades napoleónicas, mais um terrorista que andava à solta, diga-se, está bem presente numa estátua no centro da praça que antecede, e abre caminho, para a parte antiga da cidade, onde pontifica a velhinha Catedral de Santa Maria.
Um pequeno cartaz com a inscrição Eta no Eta ez, surge no alto de uma varanda de um edifício a lembrar os do Terreiro do Paço, mas em ponto pequeno. Vitória vive com emoção mais um assassitato de um empresário, responsável pela construção de uma linha de TGV no Euskadi. Os etarras não concordam com a linha e aí vai aço! Mais um morto, mais uma vítima de um grupo denominado "terrorista". O El País e o ABC davam destaque de primeiras páginas ao funeral e ao acto criminoso levado a cabo pela Eta, mesmo nos dias posteriores, já as armas dos etarras tinham arrefecido, já o corpo do defunto jazia frio, debaixo da terra.
Fomos recebidos com pompa e circuntância em Vitória-Gasteiz:
- Eles sabiam que vínhamos-disse eu à minha mulher.
A polícia tinha montado uma aparatosa barreira, onde fazia a triagem: terrorista para a direita, não terrorista para a esquerda. Depois de um polícia fortemente armado, protegido por mais dois com enormes espingardas e caras feias, se aproximar e nos iluminar as caras com uma lanterna em forma de espada à Lord Vader, prosseguimos o caminho, rumo ao hotel que nos serviria de quartel-general por três apetecidas noites.
-Na verdade, os polícias não sabem é se a Eta vem- concluí para a minha companheira de viagem.
O casamento da amiga pernambucana de longa data, que a minha mulher não via há muito, serviu também para rever uma outra amiga, também pernambucana, que veio de Nápoles, com o seu marido napolitano e os seus dois filhos napolitanos. Sangue pernambucano e napolitano misturados...(- O que é que isto dará? - perguntava-me, apreensivo).
Na verdade, eu nem sabia o que se passava em Nápoles. Sabia que não era flor que se cheirasse, mas daí a desconfiar em metade do que me foi contado e do que posteriormente comprovei...
Nápoles tem dois governos. O oficial e o da camorra. Trabalham juntos por vezes. Eventualmente o segundo manda mais que o primeiro. Eventualmente não, estou a ser benevolente. A camorra manda em Nápoles, mais que o governo, que o presidente da câmara. Manda no comércio, a cujos proprietários cobra, duas a três vezes por ano, taxas para se manterem abertos. Importa milhões de euros em artigos contrafeitos que não pagam impostos, diariamente, que passam no Porto de Nápoles. As habitações nas imediações do Porto não são habitações. A camorra comprou tudo, destruiu as paredes internas e fez delas armazéns. A coca, barata, ao alcance de todos, é outra das grandes receitas da camorra. As peças das grandes marcas da alta costura italiana são feitas em pequenas e familiares fabriquetas de Nápoles. É a camorra que controla este processo.
Angelina Jolie foi identificada como usando um destes vestidos, numa noite de óscares, há uns anos. Bella Angelina!
Pois, o terrorismo bem presente no meu fim de semana. No Afeganistão, li no El País, os talibans já controlam 70% do território, o que obriga a mais mulheres andarem tapadas, o que até achava bem se houvesse critério nas caronhas a tapar. Terroristas!
A minha mãe anulou a viagem à India, que tinha marcada para Janeiro, por causa do que aconteceu em Mumbai, disse-me quando cheguei da basca Vitória. Ninguém esperava o que aconteceu em Mumbai. Ninguém por aqui, porque por lá não sei. Mas não é grave para a minha mãe não ir á India. É grave para os familiares das vítimas e grave para a própria Índia. Grave para o mundo, claro.
O terrorismo entrou por mim adentro, neste fim de semana prolongado. Mas não é grave. É grave é quando morrem pessoas, pessoas que fazem falta às outras e que morrem sem ser por acidente ou doença. Morrer já não é bom, agora morrer em atentados?! É grave quando os terroristas controlam cidades inteiras e ai de quem se meter no caminho deles. Roberto Saviano, que escreveu Gomorra, onde ajuda a desmontar a camorra napolitana, anda desaparecido, porque se dá de caras com algum "camorrento" pode morrer, porque escreveu muitas coisas que não podia.
Isso sim , é grave, não podermos escrever.
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Observação final: este mundo violento e de impunidade é o nosso velho mundo. Nisto não há novidade. Mudou muita coisa, mas nada mudou.
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Bibliografia:
SAVIANO, Roberto, Gomorra-infiltrado no império económico da máfia napolitana, Alfragide, Caderno, 2006
Priberam online

10 dezembro, 2008

D. NUNO ÁLVARES PEREIRA - O SANTO PORTUGUÊS DO SÉC. XXI

- «Alma Mater» do Portuguesismo!

D. Nuno Álvares Pereira, um Homem do seu tempo, mas também um Homem dos Tempos que fez futuro imediato e mais remoto ou longínquo, foi sempre uma daquelas personagens e uma daquelas figuras da História de Portugal com quem mais o Povo se identificou e se reviu como num espelho de antagonismos e contradições.

Herói desde sempre, casto e desprendido, “alma mater” do Portuguesismo, dele fala o nosso cronista e historiador Fernão Lopes com emoção, empolgamento e a profetização de uma História que jamais será a mesma depois de D. Nuno Álvares Pereira.
As crónicas daqueles idos dão-nos este Militar e Santo, este Homem simples capaz de grandes gestos e eloquentes feitos como um contra –retrato de D. João I. Este enquanto Mestre de Avis, frade da Ordem de que era mestre, com votos e tudo, é o retrato do anti-herói. Um anti-herói…mas, carismático! Não nasceu herói; fez-se! Não nasceu Rei; aprendeu! Fica dele a imagem de um ser inteligente com uma auréola de vencedor ante as adversidades e as circunstâncias.

Herói e Santo chama o Povo a D. Nuno Álvares Pereira, desde sempre e ainda hoje, com carinho e veneração. Figura mitificada, aguarda um biógrafo sereno e competente que o restitua à sua época e o enquadre no cenário real e ao mesmo tempo romanceado, fruto do imaginário colectivo, das “estórias” de Cavaleiros, de Camelot e do Santo Graal.

Para se conhecer bem o personagem, para bem se avaliar a sua gesta, importa ler nas entrelinhas das crónicas da época, importa descobrir os traços do seu carácter, importa adivinhar as suas motivações e, para lá da história oficial, importa conhecer factualmente e ao pormenor a realidade nua dos seus feitos.

Só assim e com isenção, e se tal investigação for possível, nos será possível ficar a saber a verdadeira dimensão e a genuinidade da aura que se lhe atribuiu e atribui – o de ter uma grandeza cavalheiresca digna de ímpar memória e exemplaridade; um incondicional patriotismo e uma devotada fidelidade ao Rei!

Em opinião muito pessoal, a D. Nuno Álvares Pereira se deve a fundação de Portugal, enquanto estado-nação, nobremente e orgulhosamente independente e em Paz com os reinos visinhos.

Fogoso Condestável do Reino, D. Nuno Álvares Pereira, impõe pelas ameaças de violência bélica as razões do jurista João das Regras e, nas Cortes de Coimbra, em 1385, consegue eleger o novo monarca D. João I. Esta não será a sua primeira, única e última grande acção em defesa, dignificação e prestigiação do conceito de um Portugal uno, indivisível, independente e em Paz!
Também na credibilização e na salvaguarda da legitimidade do seu Soberano e da nova Dinastia de Avis, D. Nuno Álvares Pereira tem um papel relevante senão fundamental na tão necessária quanto eloquente e conveniente diplomacia internacional, nomeadamente, junto da Cúria Papal em Roma.

E, que dizer da brava e decisiva condução de homens em armas, na batalha de Aljubarrota, a 14 de Agosto de 1385. Ao lado do seu Rei, o Condestável do Reino conseguiu uma vitória tão redonda e imprevista, ante as numerosas tropas do rei de Castela, que logo ali se falou de “miraculado servidor do Senhor”.

Falar do rei de “Boa Memória” é falar do seu leal, fíel e destemido Condestável! Cara e coroa da mesma moeda D. João I e D. Nuno Álvares Pereira são os grandes artífices de um Portugal moderno, onde ambos conseguem em comum a superação do caos instalado no tempo da revolução; a imposição da autoridade monárquica sobre o clero, a nobreza e os concelhos; a instauração do prestígio real e da legitimidade da Dinastia de Aviz; a independência e a soberania ante os eventuais direitos de Castela; o reconhecimento da Santa Sé e dos estados soberanos da velha europa; e, com a tomada de Ceuta…o início do sonho de grandeza e de expansionismo humanista em defesa e propagação da Fé que constituiu a epopeia ultramarina!

Desde a Batalha de Atoleiros, junto à vila alentejana de Fronteira, em 6 de Abril de 1384 – a primeira pequena grande vitória do então capitão de uma mal equipada e mal treinada hoste de camponeses – até à sua morte, ocorrida no Convento do Carmo, em Lisboa, a 1 de Novembro de 1431 (dois anos antes do falecimento de D. João I), o glorioso condestável acumulou riqueza, terras, títulos e através de sua única filha D. Beatriz casada com D. Afonso, filho bastardo do rei, consegue fazer nascer a mais rica Casa Senhorial do Reino.
Depois deste casamento, onde prova também a sua sagacidade e astúcia, guarda para si os títulos de Conde de Ourém e de Conde de Arraiolos durante uns tempos, mas antes de se retirar e dedicar por completo à vida monástica abdica dos bens materiais.
Cansado das honras deste mundo, distribuiu os seus numerosos bens por cavaleiros, escudeiros e criados de sua Casa e pelos pobres de Lisboa. Deu tudo: ouro, prata, armas, jóias, roupas, pão, azeite, dinheiro e futuras rendas. As terras repartiu-as pelos seus três netos: D. Isabel, casada com o Infante D. João; D. Afonso, Conde de Ourém e Marquês de Valença; e, D. Fernando, Conde Arraiolos.

Quando recolhe ao lisboeta Convento do Carmo, dizem as crónicas, apenas ter de seu uma samarra de pano de Gales. Os últimos anos vive-os em total recolhimento não como monge mas como pobre e penitente recolhido por caridade.
D. João I, fruto da devoção popular e da fama dos seus feitos, projectou submeter a Roma a causa da beatificação de Frei Nuno de Santa Maria. Muitos anos haviam de passar, até que Sua Santidade o Papa Bento XV, já em pleno século XX, o elevaria aos altares, concedendo-lhe a dignidade de beato… o Beato Nuno de Santa Maria.
Hoje, sabemos, que a postulação para a sua canonização, se encontra em fase final na Congregação para a Causa dos Santos, da Santa Sé, em Roma.

Em breve teremos a boa nova de um novo Santo português, o primeiro Santo português do século XXI: D. Nuno Álvares Pereira, São Nuno de Santa Maria, o Santo Condestável!

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Biografia

ALMEIDA, Fortunato de, “Santos e Varões Piedosos – D. Nuno Álvares Pereira”, in “História da Igreja em Portugal” ( I volume ), Preparada e Dirigida por Damião Peres, Porto, Portucalense Editora, 1967.

DUQUE DE BRAGANÇA, S.A.R. Dom Duarte, “D. Nuno Álvares Pereira, Cavaleiro e Santo, Peregrino a Santiago ( 1365 – 1431 )”, Santiago de Compostela, Xunta de Galicia, 2004.

DUQUE DE BRAGANÇA, S.A.R. Dom Duarte, “D. Nuno Álvares Pereira – Um Santo Para o Nosso Tempo”, Lisboa, Fundação D. Manuel II, 2003.

ESCUDERO, Vítor, “D. Nuno Álvares Pereira – ‘Alma Mater’ do Portuguesismo”, Conferência, Roma, Palazo Ferrajoli, 2003.

MATTOSO, José, “ A Monarquia Feudal ( 1096 – 1480 )”, in “História de Portugal” ( II volume ), Direcção e Coordenação de José Mattoso, Lisboa, Editorial Estampa, 1993.

MATTOSO, José, “ Pereira, Nuno Álvares”, in “Dicionário Enciclopédico da História de Portugal” ( II volume ), Coordenação de José Costa Pereira, Lisboa, Publicações Alfa, 1985 e 1991.

OLIVEIRA MARTINS, J. P. , “D. Nuno Álvares Pereira – A Vida de Nun’Álvares”, in “História de Portugal” ( XXIV volume ), Coordenação de José Hermano Saraiva, Matosinhos, Quidnovi, 2004.

PERES, Damião, “História de Portugal” ( III volume ), Barcelos, Portucalense Editora, 1931.

SARAIVA, José Hermano / GUERRA, Maria Luísa, “Da Fundação aos Lusíadas”, in “Diário da História de Portugal” ( I volume ), Lisboa, Difusão Cultural, 1992.

03 dezembro, 2008

O tempo e o trabalho

Já há anos que venho pensando para comigo mesmo que o tempo que nos tomam deveria ser nosso e não dos outros. O tempo que gastamos a trabalhar não é apenas o tempo em que estamos no local de trabalho. Muitas vezes vai muito para além disso, o que considero um roubo, apesar de não ser do Bloco de Esquerda.
Acordo todos os dias às 6.30 horas da manhã, porque que devo estar às 9.00 horas no meu local de trabalho. Tanto tempo até às 9.00 horas... são 2.30 horas que tenho, que deveriam ser gastas com os meus, comigo, como bem entendo, mas não, elas são "gastas" em função do meu horário de trabalho, 9.00 horas.
Depois, há o regresso a casa, e a hora que se gasta a chegar, dependendo do local de trabalho e do de morada de cada um. Podem ser duas horas e podem ser 15 minutos, claro.
Além disso considero um exagero o tempo de trabalho. Não está em discussão a necessidade que temos de trabalhar e do salário no fim do mês, está, sim, em causa o tempo que passamos a trabalhar (nalguns casos, que passamos no emprego). São os nossos filhos que sofrem com isto. O tempo que "damos" ao patrão, o tempo que o patrão nos compra, somados dão, em média, suponho, umas 10 horas, no mínimo.
Sejamos justos: trabalhamos mal, ainda por cima, à boa maneira portuguesa.
Depois queixamo-nos das nossas crianças, que andam mal educadas, que andam na droga, que batem nos professores, que não têm referências.
Só uns pais muito equilibrados é que, após 10 horas de trabalho, têm ainda a clareza de espírito, as forças para educar com qualidade os seus pequenos.
Que pai que ganha misérias, que chega cansado a casa, que anda "de mal com a vida" pode ainda, ao chegar a casa, já de noite, e ainda dar o carinho, a atenção, os ensinamentos de que as crianças tanto precisam?
Não estou aqui a particularizar, a chamar a atenção para um caso isolado, estou a apreciar globalmete o que vejo e ouço há anos.
Menos horas de trabalho, mais rentáveis, mais tempo para nós e para os nossos. Julgo que seria a receita para um mundo melhor.
Ou então, optemos pela fórmula antiga: mulheres voltem para casa! Como estamos no século XXI poderemos até ser nós a fazê-lo...

02 dezembro, 2008

A Interdisciplinaridade em História

- História, Arte ou Ciência?


Assumir e interpretar, de forma pessoal, a verificação da importância da interdisciplinaridade na pesquisa histórica, constitui um dos quinze objectivos [1] específicos do programa da disciplina de Introdução à História – I.
É, pois natural, que de um ponto de vista personalizado, com base nas leituras efectuadas [2] , nos seja dada a oportunidade de inferir e reflectir, sobre algumas das mais significativas páginas da teoria crítica moderna e do pós-modernismo, de que o Professor José Mattoso, incontornável figura de autor e investigador da historiografia contemporânea portuguesa, é um dos mais preclaros paladinos.
Em ruptura com o modernismo (corrente literária, musical, artística, arquitectónica, cultural, etc… contra o classicismo, a favor da estética, que corresponde ao final do século XIX e perdura até à II Grande Guerra Mundial), com o chamado modernismo histórico, onde sobressaem Alexandre Herculano e Oliveira Martins, os pós-modernistas, de que é figura emblemática o Professor José Mattoso, estabelecem uma nova filosofia ou teoria de escrever a História.
Poderemos com propriedade falar de uma teoria ou conceito da História que é, ao mesmo tempo e em si mesma, uma assunção ecléctica de saberes e experiências? Sim! Quando José Mattoso se questiona ou nos propõe discorrer sobre se a História é Arte ou Ciência, o historiador aponta-nos o caminho, criticando o mundo académico e a comunidade científica, que se identifica e se poderá sintetizar de forma paradigmática nos conceitos, vulgarmente designados, por ‘corredores do poder’ ou por ‘mundo das capelinhas’.
Para escrever história, para se escrever sobre a História, há que se ‘despir a ideologia’, evitar o palco político, despojarmo-nos de preconceitos.
A revelação ou a opção apontadas, indicam-nos um caminho que nos revela um método que escolhe, em cada momento, em cada sistema e em cada solução, o que se julga o melhor! Com ampla liberdade de aproveitar de cada cultura, cada corrente política ou cada credo religioso, o que se considere mais útil, sem aderir em exclusividade, por carreirismo ou ‘carneirismo’, a esta ou aquela doutrina.
É, por isso que José Mattoso [3] , tentando sintetizar ou concluir, nos afirma a dado passo… “praticar a ciência sem excluir a arte, ou de exercitar a ciência como uma arte”.
A História, como a História do Homem, tem que se assumir, sem complexos ou falsos pudores, como uma mescla de conhecimentos, saberes e experiências, onde a ciência, a técnica e a arte, podem e devem dar as mãos, numa harmoniosa partilha, consciente e coerente, que possa dirigir a uma mais profícua investigação, um mais libertador estudo e a um mais descomplexado registo e sistematização, sem vícios de percurso.
Só esta atitude, de grande rigor intelectual - o que se saúda e aplaude, em José Mattoso! -, nos permitirá recuperar a fantasia, a magia, a paixão e a imaginação, em suma, o fascínio da História, como forma de resgatar a memória colectiva que importa preservar, divulgar e engrandecer, para salvaguarda da própria identidade nacional, nos conturbados tempos de transição que nos coube em sorte viver.



[1] Iglésias, Olga, “Curso de História – Introdução à História I –Preparação da Frequência e do Exame”, Lisboa, 2008, 2 pp.
[2] Mattoso, José, “A Escrita da História – Teorias e Métodos”, Editorial Estampa, Lisboa, 1986.
[3] Idem

21 novembro, 2008

O que é a História Narrativa?

O que é a História Problematizante?

- Exemplos…


Nestas duas pertinentes questões, se encerra um dos mais actuais, oportunos e interessantes capítulos da Historiografia, ou melhor, do estudo da Historiografia, enquanto Ciência Histórica, auxiliar ou complementar desse imenso fresco que é a ciência maior, mais vasta, mais ampla, do ponto de vista multidisciplinar e interdisciplinar, enquanto História propriamente dita.

A Historiografia é, sem margens para dúvida, a ciência que estuda os registos dos acontecimentos e dos factos passados, considerados mais tarde ou na própria actualidade como documentos históricos. Enquanto durante os chamados períodos pré-clássicos, clássico e até, durante toda a Idade Média, praticamente até finais do século XV, os registos se efectuavam de uma forma pragmática, objectiva e sintética[1], dando-nos fé das mais importantes datas da existência de um soberano, um príncipe, um bispo, um alto dignatário da corte, um nobre, uma família representativa ou até de um reinado, ou bispado, em função da apresentação das datas de nascimento e óbito, com o intuito de fazer memória, evocação religiosa, preservar linhagens genealógicas, direitos hereditários, títulos e estatutos sociais, dignidades públicas e eclesiásticas, não é menos verdade que este tipo de prática foi evoluindo, com a própria evolução dos tempos, com a natural evolução das mentalidades, com a expectável evolução do estádio intelectual e racional do Homem e com a consequente evolução tecnológica do último século, século e meio.

De meros registos burocráticos das chancelarias régias, como forma de observar, controlar e validar leis, doações e privilégios; a registos genealógicos, como método de garantiar e perpetuar a veracidade e legalidade de determinados extractos sociais da nobreza; a registos religiosos, como testemunho de testamentos e doações, que obrigavam à evocação e memória dos instituidores de conventos e mosteiros, a historiografia mais antiga, cede lugar a crónicas e estórias, mais ou menos focalizadas em grandes momentos – guerras, batalhas, casamentos, embaixadas, estabelecimento de laços ou convénios políticos e diplomáticos - ou em períodos de tempo mais alargados e correspondentes a reinados, ou a determinadas épocas com um denominador comum ou um protagonista central.

Com o refinamento da própria arte da escrita, com o domínio e desenvolvimento do uso das ideias, do conhecimento, da sua desejável interligação, com uma leitura mais transversal dos acontecimentos e uma visão mais internacional, os registos ganham colorido, dimensão, profundidade, planos primários e secundários, sequências, continuidades, duração e ligação entre tempos e acontecimentos ou factos com aparente distanciamento ou omisso estabelecimento de relação.

Em Portugal, Fernão Lopes, ‘escrivão de livros’ do rei D. Duarte (1434), marca como que o início da era ou época moderna e deixa escola, uma escola que perdurará e será enriquecida e remodelada por Rui de Pina.

Esta observação, consistente e coerente, se atentarmos na própria observação persistente da evolução dos tempos, vai ganhando contornos e diferenciamentos que nos permitem, mais tarde, estabelecer contactos, comparações, afinidades e distanciamentos. Começamos a poder ler textos sobre determinadas figuras, acontecimentos, factos e períodos, chamados históricos, bastante diferentes na fórmula, no conteúdo, no estilo e até nas conclusões apresentadas.

Dois autores, perante a mesma realidade, o mesmo acontecimento, a mesma fonte, podem – porque a isso os impele a liberdade de interpretação, a riquesa individual de conhecimentos e ferramentas de trabalho e investigação disponíveis! – dar-lhe leituras históricas diferentes, desde logo fazendo abordagens pela via sociológica, económica, política, ideológica ou outras. Dois autores, do ponto de vista académico, podem divergir nos métodos de análise e reflexão e por vias paralelas, chegarem a conclusões coincidentes ou diferenciadas.

Poderemos assim dizer, com as naturais reservas, da humildade própria e devida pela condição de discente, que a evolução ocorrida no conceito de uma história narrativa para uma história problematizante, foi quase natural, tão natural como a contextualização da evolução das mentalidades e das ideias, ao fim e ao cabo, a evolução do próprio Homem, enquanto parte nuclear da própria História.

Mais, com o advento dos tempos contemporâneos, a história problematizante, apresentada com capacidade de observação, motivos de análise, intuição reflectiva, comparação e massa crítica, ganha adeptos e não se circunscreve a meras apreciações diferenciadas entre autores. Ela própria, nos tempos que nos coube em sorte viver, equaciona muita da historiografia existente e dos métodos de estudo até hoje desenvolvidos e aplicados. Lança novos olhares, novas perspectivas e novas perguntas sobre o que se considerava ou considerou largo período de tempo como definitivo ou dogmático.

Desde logo, porque durante muito tempo, a historiografia se centrou no papel dos protagonistas maiores da história – reis, prícipes da igreja, generais, heróis, etc… - e descurou, um pouco como a própria arqueologia, a vida normal e material, logo genuína, do comum dos mortais[2].

Para um melhor entendimento do que é um texto de História narrativa, poderemos dar como exemplo um dos muitos capítulos das crónicas de Fernão Lopes ou Rui de Pina, para falarmos só de casos portugueses.
Do mesmo modo poderemos dar como exemplo de História problematizante o incontornável livro “Identificação de um País” [3], do Professor José Mattoso, ou até, o texto “História e Sistema: Interrogações à Historiografia Pós-Moderna” [4], do Professor António Manuel Hespanha e, que curiosamente, é inspirado no livro já referenciado de José Mattoso.



[1] AAVV, “Historiografia”, in Serrão, Joel, “Dicionário de História de Portugal”, vol. VI, Porto, Livraria Figueirinhas, 1989, pag. 418.
[2] Le Goff, Jacques e Chartier, Roger, Revel, Jacques, (direc.), “A Nova História”, Coimbra, Almedina, 1990, pag. 190
[3] Mattoso, José, “Identificação de um País – Ensaio sobre as Origens de Portugal. 1096-1325”, I Oposição, II Composição, Lisboa, 1985, 2 volumes, 457 e 324 pp.
[4] Hespanha, António Manuel, “História e Sistema: Interrogações à Historiografia Pós-Moderna”, Ler História, nº 9, 1986.

20 novembro, 2008

O ofício do historiador

O autor ao identificar as ciências mais importantes para a investigação histórica deixa transparecer a sua preferência pela Antropologia, Sociologia e possivelmente a Psicologia, não se referindo à Demografia Histórica e à Paleografia, indispensáveis para descodificar os documentos coevos, possivelmente por achar que não valerá a pena citá-las.
Mas que Fernão Lopes “ …em andar por mosteiros e igrejas buscando os cartórios e os letreiros delas, para ver essa informação… não ainda em este reino… ” os citou. É verdade que estes documentos de um modo geral apresentam apenas a versão dos vencedores, contudo o grande cronista foi capaz de separar esse facto e deixar-nos uma leitura sócio/histórico/antropológico como parecer da sua época.
Também o cronista por vezes demonstra tal como o autor, a sua aparente divergência em alguns casos, isto é, também tinha dúvidas embora optasse pela informação que lhe era mais credível.
Os três momentos da elaboração do seu discurso histórico são o exame do passado através das suas marcas (talvez por as suas marcas serem poucas esqueceu o Terramoto de 1755, na Enciclopédia História de Portugal) é imprescindível que qualquer documento só tem sentido histórico quando inserido no contexto do tempo/homem a que eu acrescentaria o espaço, já que este condiciona a acção do homem e possivelmente, justifica a sua opção. Podemos através da História, interpretar o passado de forma a compreender o presente e a sua relação entre estes dois tempos, encontrando ou confirmando a sua verdade, mesmo em relação aos grandes movimentos colectivos.
A intuição de um historiador necessita para ser credível de um trabalho de análise na investigação efectuada pelos diversos investigadores que ao longo do tempo o antecederam.
Quanto à última face, ou seja, à elaboração do texto final, segundo o autor, este têm de ser rigoroso, objectivo e bem fundamentado, para ser considerado um texto histórico, mas deverá ser claro, comunicativo e sugestivo para o comum dos leitores.
Ainda segundo o autor concluímos que a História não é a realidade, sendo ou não a expressão do seu próprio desejo.
"O homem não vive somente de pão; a História não tinha mesmo pão; ela não se alimentava se não de esqueletos agitados, por uma dança macabra de autómatos. Era necessário descobrir na História uma outra parte. Essa outra coisa, essa outra parte, eram as mentalidades".
"A História procura especificamente ver as transformações pelas quais passaram as sociedades humanas. As transformações são a essência da História; quem olhar para trás, na História de sua própria vida, compreenderá isso facilmente. Nós mudamos constantemente; isso é válido para o indivíduo e também é válido para a sociedade. Nada permanece igual e é através do tempo que se percebe as mudanças".
"A História como registo consiste em três estados, tão habilmente misturados que parecem ser apenas um. O primeiro é o conjunto dos factos. O segundo é a organização dos factos para que formem um padrão coerente. E a terceira é a interpretação dos factos e do padrão".

- Filipa Carvalho

17 novembro, 2008

O que é o Conceito de Idade?

- Sistematizar o tempo histórico.

Há já mais de quatro milhões de anos que o homem surge na terra cuja existência, muito mais antiga, comprovadamente vai até aos 4.600 milhões de anos. Pouco a pouco, os homens ergueram-se e aprenderam a equilibrar-se de pé. Andam, utilizam as mãos para fabricar utensílios em pedra e, ainda nus, iniciam a sua vivência de grupo. Desses longínquos tempos até aos nossos dias a grande aventura do homem não mais parou de nos maravilhar, superando-se e surpreendendo-nos em expectativas, questões válidas e pertinentes. A partir do final do séc. XVIII, a história, enquanto sitematização, dos factos e das ocorrências registadas no passado, fruto da racionalização do homem, leva os historiadores e os investigadores a uma definição de grandes linhas de pensamento, de investigação e de períodos da avaliação e observação desse mesmo passado. Em 1851, Daniel Wilson, numa obra intitulada “The Archaeology and Prehistoric Annals of Scotland” e, anos mais tarde, em 1865, John Lubbock, no livro “Prehistoric Times”, utilizam e popularizam pela primeira vez, respectivamente, o termo ‘pré-história’. Daí para cá o conceito de datação do estudo científico de determinados grandes períodos da história, prefeitamente limitados entre si e com matrizes identidárias comuns tem sido uma necessidade comum a todos os investigadores. O seu enquadramento, sitematização, avaliação e caracterização, não deixou ainda de evoluir, sempre em função dos novos olhares e novos conhecimentos, que de dia para dia, surgem com novas leituras e novas abordagens! Assim, e anterior ao aparecimento da escrita, temos a Pré-História, desde 4 milhões de anos até aos 8.000 a.C.; com o aparecimento da escrita, na Mesopotâmia, incia-se a História, propriamente dita, com a Antiguidade, dividida em grandes áreas de estudo, entre outras, como as civilizações pré-clássicas e clássicas, desde cerca de 3.500 a.C. até 476 d.C.; a partir do séc. III, com as invasões bárbaras da Europa até ao século XIV, estamos perante o grande fresco da Idade Média; a Idade Moderna, pode-se avaliar e centrar num largo período de tempo que medeia entre o início do Renascimento Europeu e a Revolução Francesa, cujo marco histórico fundacional se pode achar na Tomada da Bastilha, a 14 de Julho de 1789; a Idade ou época Contemporânea, acha-se a partir da chamada Revolução Industrial e do fim do império napoleónico até aos tempos que nos coube em sorte viver.
Claro que, ao afirmar que estes grandes conceitos ou definições da história, ou melhor, da idade da história, estão balizados por este ou aquele acontecimento, apenas nos limitamos a percorrer um caminho que nos é indicado pela grande maioria dos autores que versaram estas matérias… por exemplo, no que se prende com a Idade Contemporânea, tomamos como fiável aquilo que nos indica Waldemar Besson[1], quando afirma: “Ao contrário do conhecimento científico de outras épocas, que insistentemente se tem vindo a precisar e cinzelar, o estudo e a exposição da história contemporânea (-Periodização, história contemporânea) está, como é natural, ainda nos começos. Da história mais recente falta-nos ainda perspectiva de conjunto que possa reivindicar para si a missão de servir de guia a gerações vindouras, indicando-lhes o caminho de interpretação válida.”. E, na nossa modéstia de eterno aluno, acrescentaremos, que para o estudo da Idade Contemporânea, que o próprio Besson[2], afirma iniciar-se de 1914 em diante, não menos importante será o necessário distanciamento dos e sobre os acontecimentos, na vã tentativa de evitar a pessoalização, a idealização ou a natural associação às convicções ou ideologias do observador e investigador.
Mas, até aqui, outros autores divergem…



[1] Besson, Waldemar, (Coord.), “História”, Lisboa, Editora Meridiano, 1979, pag. 304
[2] idem

15 novembro, 2008

Obama = Kennedy?

De facto, a História está constantemente a repetir-se. Com novos actores, novos cenários e até novas deixas, mas com o mesmo argumento de fundo.
Desta feita, com a eleição de Barack Obama como presidente dos EUA, vêem ao de cima as semelhanças com J. F. Kennedy, como foi salientado numa reportagem da revista Visão.
Entre o 35º e o 44º presidentes as coincidências são flagrantes:
- ambos cursaram Direito em Harvard;
- JFK ganhou aos 39 anos o Prémio Pulitzer com o livro Profiles of Courage; Obama escreveu aos 33 anos o best-seller A Minha Herança;
- JFK torna-se conhecido com o discurso de apoio a Adlai Stevenson em 1956, na Convenção Democrata; Obama revela-se em 2004 com o discurso de apoio a John Kerry na mesma Convenção;
- JFK apostou numa imagem inovadora deixando o chapéu e a brilhantina; Obama participou em comícios sem graavata e já se deixou fotografar em fato de banho e chinelos;
- Kenney tinha 42 anos e era senador pelo Massachusetts quando se candidatou à Casa Branca; Obama tinha 45 anos e era senador pelo Illinois;
- quando ambos anunciaram as suas ambições presidenciais foram considerados demasiado novos pelos seus pares;
- ambos representam minorias populacionais: Kennedy era católico num país maioritariamente protestante e Barack Obama é afro-americano negro num país maioritariamente branco;
- nos discursos de ambos constam expressões como "esperança", "mudança" e "determinação".
Será o 44º presidente tão marcante na História como o foi o 35º?
O tempo o dirá.

09 novembro, 2008

Fez-se História nos EUA

No passado dia 4 os EUA foram a votos para escolher o seu presidente. Para além de uma afluência histórica como há muito não se via dado os americanos estarem cada vez mais divorciados da política, registou-se ainda a eleição do primeiro presidente negro 150 anos depois da abolição da escravatura.
Espera-se muito de Barack Obama.
Para lá do facto positivo de George W. Bush sair de cena (será talvez a única coisa positiva que se poderá dizer deste governante), aguarda-se agora com expectativa uma nova política que se distancie da filosofia do lucro desenfreado e tenha maior atenção às pessoas. É isso que esperam os milhões de americanos que perderam o emprego ou a casa na voragem do colapso da especulação financeira.
É isso também que espera o resto do mundo.
Como se verificou, a filosofia da guerra preventiva teve como único resultado milhares de mortos entre as tropas americanas e os civis apanhados no fogo cruzado, sendo que os objectivos oficialmente definidos (apanhar bin Laden e estabilizar a região do Médio Oriente) não passaram de boas intenções, na melhor das hipóteses, ou de desculpas esfarrapadas para assegurar o fornecimento do petróleo através da imposição da pax americana, numa visão mais cínica dos acontecimentos. O mundo inteiro ficou farto da arrogância e incompetência da Administração Bush que apenas conseguiu redobrada crispação nos inimigos e alienação da boa vontade dos amigos para resolver os problemas.
Como dizia Winston Churchill: «Pode sempre contar-se com os americanos para fazerem a coisa certa... depois de tentarem tudo o resto».
Espera-se ainda que os seguidores acéfalos da visão do lucro-a-todo-o-custo que pontearam um pouco por toda a Europa finalmente se dêem conta do buraco para onde se dirigiam na ânsia de veneração ao deus-dinheiro e arrepiem caminho antes que seja demasiado tarde.

04 novembro, 2008

Cara e coroa do dever cumprido!



Até 2005 completaram a licenciatura em História (Universidade Lusófona) 3 turmas com um total de 33 licenciados em História. Os primeiros licenciados após a adequação à reforma de Bolonha vão sair no fim deste ano lectivo, quando o Curso completar 10 anos da sua existência. O 2º ciclo do Curso produziu até agora 12 mestres.

Acaba de ser aprovado pela Direcção Geral do Ensino Superior pelo seu despacho de 27-10-2008 o funcionamento do 2º ciclo conducente ao grau de mestre em Ensino de História e de Geografia no 3º Ciclo do Ensino Básico e no Ensino Secundário, que encaramos como um desafio para a segunda década da vida do Curso de História na Universidade Lusófona.

A antiquíssima expressão popular “cara e coroa”, associa-se sempre ao conceito de duas visões, complementares entre si e integrantes de uma única realidade. Dizia-me o meu avô Francisco da Veiga Campos que esta expressão é dos tempos da monarquia, quando as moedas tinham de um lado a real efígie e do outro as armas do reino, devidamente encimadas por uma coroa real, símbolo de soberania e independência. Outros contarão outras estórias…Mas, de expressão popular a designação técnica – frente e verso da mesma moeda – interessa-me, isso sim, a interpretação que dela hoje vulgarmente se faz. Tudo isto a propósito de uma realidade! Uma palpável, duradoura – contrariando muitas aves agoirentas! – feliz, responsável, independente, séria, coerente e consequente realidade: os 10 Anos do Curso de História, da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, da Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias.


Está já prevista para o dia 20 de Março a IX Oficina de História. Versará sobre GOA, antecipando assim a comemoração de 500 anos em 2010 da sua inserção no antigo Império português do Oriente, e considerada por Afonso de Albuquerque como a "chave de toda a Ìndia". Os goeses de hoje preferem que se comemore 1910, em vez de 1510! A Oficina estudará os diferendos na análise do passado histórico português no Oriente.

Entre outras iniciativas, programadas para comemorar, com dignidade, satisfação e orgulho este aniversário que é, também, efeméride viva e palpitante pois a história e memória já tão dilatadas deste curso, fundado em 1999, são factor que se aplaude e saúda, anuncia-se para breve um Seminário de Heráldica e Genealogia, organizado pelo Professor Doutor Benito Martinez. Que, como não poderia deixar de ser, conta desde já, com o alto patrocínio da Academia Internacional de Heráldica e com o empenho e inscrição de alguns dos seus Membros mais destacados.

Quase em simultâneo, vários ex - alunos e actuais alunos do Curso de História, com o apoio de alguns Professores do mesmo curso, organizam-se já num espontâneo movimento de solidariedade e fraternidade, cujo objectivo maior será a divulgação e apoio às actividades extra curriculares e fomentadoras da massa crítica do mesmo curso de História. Este grupo de trabalho que se deverá chamar Núcleo Lusófono de História, está aberto à participação de Todos! Sem excepções!

Ambos os eventos – “cara e coroa” – da nossa maneira de estar e de ser Professores e Alunos; de fazer um espaço de convívio, estudo e investigação multidisciplinar para os verdadeiros interessados; de dinamizar, de divulgar, de prestigiar e engrandecer o Curso de História da Lusófona, são dignos de registo e para a posteridade aqui fica ele! “Cara e coroa” da nossa satisfação íntima do dever cumprido!

Diálogos da / com História


De acordo com o espírito de Bolonha, o Curso de História da Universidade Lusófona (Campo Grande) vai inciar uma série de iniciativas no âmbito de "Diálogos com História", destinadas a combinar a formação dos licenciandos do curso de História e outros da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Lusófona (Campo Grande) com os interesses da comunidade em geral. Trata-se da preocupação de associar a universidade com a sociedade e criação de competências.
A primeira destas iniciativas será um Seminário com duração semestral e de frequência semanal (3h) a partir do mês de Janeiro. Os externos interessados poderão inscrever-se mediante o pagamento de €50 e terão direito a certificado de participação e aproveitamento.
Os outros cursos previstos abordarão Turismo Cultural, Museus de Lisboa, Africanologia, História e Informática, Hitória e Jornalismo, Ciências Documentais, Paleografia, Lusofonia Asiática.

01 novembro, 2008

95 teses: Entre Frei Tetzel e Frei Bento

O monge Martinho Lutero afixou as suas 95 teses na porta do Schlosskirche, em Wittemberg (Alemanha) em 31 de Outubro de 1517. Foi um manifesto de protesto contra a doutrina das Indulgências da Igreja Católica, particularmente no contexto da utilização dessa doutrina para resolver as suas dificuldades financeiras. A acção de Lutero foi em grande parte uma resposta à venda de indulgências por João Tetzel, um frade dominicano, delegado do Arcebispo de Mainz e do papa. O objectivo desta campanha de angariação de fundos foi o financiamento da Basilica de S. Pedro em Roma.

Foi lançado no dia 29 deste mês no auditório Vitor de Sá da Universidade Lusófona o nº 25 dos Cadernos de Ciência das Religiões, com a presença do Frei Bento, frade dominicano e director-fundador da Licenciatura em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona, bem como do Prof. Dimas de Almeida, também professor da mesma Universidade e tradutor da versão portuguesa das 95 teses de Martinho Lutero publicada ontem.

Foi salientado durante o evento que a Reforma Protestante não conseguiu afectar Portugal com qualquer intensidade devido à actuação da Inquisição. Nem mesmo os Protestantes em Portugal manifestaram muito zelo na sua implantação neste país até os meados do século passado. Foi citado um processo da Inqusição de 3 de Março de 1571 que condenou um primeiro português, Manuel Travassos, bacharel da Universidade de Coimbra, acusado de heresia luterana. Neste processo que demorou 8 anos, ficou também implicado Damião de Góis.

Pode parecer anedótico, mas o censo oficial da Índia portuguesa em 1910 indicava 1 protestante em Goa. Descobriu-se que era o consul britânico em Goa. Um outro censo em 1942 não indicava nenhum protestante. Havia consul britânico ainda em Goa, mas nesta altura era um muçulmano, Major Ali Baig!

Embora tenha havido poucos estudos sérios sobre o protestantismo no mundo católico português, foi organizado um colóquio pelo grupo LUSOTOPIE da Sorbonne (Paris) em 1998. Os estudos nele apresentados podem ser consultados nas Actas Lusotopie - 1998.

31 outubro, 2008

OUFKIR

Nota prévia, de partilha pessoal com o leitor, para que este sinta uma maior intimidade com quem escreve:

Hoje parecia uma gaja, aos olhos de quem olhava para mim, no trânsito. Dentro do meu carro arranjava as unhas com o meu multifuncional canivete suiço comprado no Brasil, sem me aperceber do acto menos másculo. Quando vi um homem, dentro do seu veículo, num semáforo, a olhar insistentemente para as minhas mãos, e para os meus gestos abichanados, apercebi-me da figura que estava a fazer. Claro que não me importei com ela, a figura, mas depois, quando percebi que a música que dava na rádio era da Luso-canadiana Nelly Furtado , senti-me um pouco agayolado e apressei a manicure que há em mim e o indicador direito lá ficou menos bem limado.

Fim da partilha com o leitor.



Vamos agora à história:

Oufkir: este nome não me sai da cabeça há uns 4 dias. A primeira vez que ouvi falar deste nome foi em 2001. A filha de um oficial da Royal Marrocain Air Force (RMAF), na reserva, foi a primeira a contar-me que tinha havido um atentado a Hassan II, era ela pequena, e que o principal responsável pelo sucedido havia sido exemplarmente punido. Era o General Oufkir. O edifício de uns 5 andares, que havia suscitado a minha curiosidade inicial, situado na zona da praia, Casablanca, e não muito longe da 2ª maior mesquita do mundo, tinha (e ainda terá) um aspecto inacabado, velho, e contrastava com as bonitas vivendas situadas naquele bocado priveligiado de Casablanca. O bâtiment, como lhe chamou a filha do oficial da RMAF, havia sido da família de Oufkir, outrora poderosa e próxima à família real, mas que caíra em desgraça. Depois do atentado, Hassan II, depois de "tratar" do traidor principal, o general Oufkir, promoveu perseguição impiedosa aos restantes membros da família. O prédio, então em construção, ficou ali como um aviso aos que possam eventualmente pensar em atentar contra o rei.
A mensagem é forte, sem dúvida. Quando a filha do oficial me contou aquilo preparava-me para lhe colocar mais questões sobre o assunto, mas a Gendermerie Royal aproximava-se. Nos tempos de Hassan II, a Gendermerier Royal não se coibia em procurar receber um dinheiro extra, sobretudo dos incautos motoristas. Eu e a filha do oficial éramos fortes candidatos a esses pagamentos, porque estávamos dentro dum carro, ás 6 da manhã. Mas, sobretudo, porque éramos um homem e uma mulher dentro dum carro de matrícula estrangeira. Homem e mulher juntos só se forem casados ou então da família, senão estão em falta com a lei.
A partida à pressa fez-me esquecer Oufkir por momentos, mas, chegado a Lisboa, procurei informações e descobri um livro de Malika Oufkir, onde conta tudo o que podemos querer saber sobre o que aconteceu em 1972 e nos anos posteriores, de perseguições e o terror vivido pela família Oufkir.
Em resumo, a história: Malika e irmãos tinham uma vida de príncipes, vivendo no Palácio Real, convivendo diariamente, brincando com os filhos do Rei (entre os quais o actual Rei, Mohamed VI). O pai, o General Oufkir, era o braço direito de Hassan II. Em 1972, por motivos que não cabe aqui referir, tudo muda, por causa do atentado: o General suicida-se (segundo algumas versões), e Hassan II faz prisioneira a família do traidor, confisca todos os seus bens, encarcera-a, sobretudo em prisões no sul do país. Dos palácios para as prisões do deserto, eis a triste sina da família Oufkir. O assunto foi tabu durante muitos anos. O regime de Hassan II endureceu e a família desapareceu. Passados cerca de 20 anos, um dos Oufkir conseguiu fugir e contar o que se passava a um jornalista estrangeiro. As pressões internacionais sobre HassanII começaram a fazer-se sentir, o que o obrigou a libertar a família, após tantos anos de suplícios.
E eu ali estava, em frente a um verdadeiro monumento histórico, o prédio de Oufkir, em frente à praia, com a filha de um oficial da força aérea, na reserva, a quem Hassan II havia um dia presenteado com várias casas por serviços prestados (sabe-se lá se não tinha sido protagonista naquele atentado, ao lado do rei, claro está). Ah, como gostava de falar com o homem, de entender que papel tinha tido nesses quentes dias. Mas a minha posição não era muito confortável, a mãe já sabia que a filha tinha um caso comigo, o irmão era um enorme e radical islãmico, daqueles com a barba comprida, e eu achava que não me deveria arriscar uma entrevista, ainda por cima sobre um assunto tão delicado. Se o pai tivesse suspeitado da coisa, talvez eu não estivesse aqui hoje, talvez tivesse sido obrigado a casar, eu que nem divorciado estava!
Talvez até, com as minha perguntas indiscretas, fosse levado para a esquadra da policia política, onde me sujeitariam a um interrogatório, como me aconteceu 10 anos antes, por ter tirado uma fotografia a uma esquadra de polícia, nos arredores de Casablanca.
É por estas e por outras que quando me falam do filme Casablanca eu respondo: qual dos meus filmes em Casablanca? Aquele em que vivi 4 meses num bairro pobre da periferia?; ou aquele em que tive um caso com a filha do oficial na reserva e fui com ela para a minha tenda, depois de "comprar" o guarda do parque de campismo porque não nos deixavam entrar em hoteis porque não éramos casados?; ou ainda o do meu casamento, da minha conversão ao islamismo, no mês de ramadão religiosamente cumprido? A qual dos filmes se referem?

29 outubro, 2008

Biblioteca Victor de Sá - Uma visita com História!

Lembro-me bem, de em pequeno, aí pelo fim da década de sessenta, inícios dos conturbados anos setenta, do século passado, ter em casa, propriedade de meu Pai, um livro da sempre recordada e inovadora editora “Portugália”, de pequeno formato, cujo autor era um tal Victor de Sá. Recordo este livro, cujo nome se perde nas brumas da minha memória, e mais ainda o nome do seu autor, pelo simples facto de, na época, ter inquirido os meus progenitores do porquê de aquele senhor que eu não conhecia ter o mesmo nome que eu, mas com grafias diferentes: no caso dele o nome próprio escrevia-se com um C entre o I e o T; no meu próprio nome, eu não possuía o tal enigmático C…

Por aqueles tempos, registei ainda dois outros factos: que o livro pertencia a uma colecção, absolutamente marcante no panorama editorial português da segunda metade deo século XX, a colecção ‘Portugália’, organizada e dirigida por Augusto da Costa Dias a quem nos ligava a amizade segura que mantinha com meu Pai e que, mais tarde, vim a descobrir como autor; e que, o já falado Victor de Sá, não era outro senão o Professor Universitário e célebre ensaísta português, de seu nome completo Victor Baptista Gomes de Sá, nascido em Cambeses, Barcelos, Minho, em 1921.

Por estes dias, em que, como aluno do primeiro ano da licenciatura de História, da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, da Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, me foi dada a oportunidade de, enquanto discente da disciplina de
Introdução à História – I, visitar pela primeira vez, a Biblioteca Central Victor de Sá, revisitei estas memórias avulsas e fui indagar com mais profundidade o que poderia, desde logo, acrescentar ao meu conhecimento sobre o Homem de Cultura que deu nome a esta biblioteca.

Victor de Sá (1), inciou a sua carreira profissional em Braga, precisamente com vinte anos, em 1941, tendo começado a trabalhar no ramo livreiro. Só em 1959, obteve na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, a sua licenciatura em Ciências Histórico-Filosóficas, tendo-se doutorado em Paris, dez anos depois, em História. Já depois do 25 de Abril de 1974, exerceu a docência nas universidades publicas de Braga e do Porto e, ainda, em universidades privadas em Lisboa, como é o caso da nossa Universidade Lusófona.

Victor de Sá, deixará o seu nome ligado à Academia e, também, às letras com vários títulos, sobretudo no campo da cultura, política contemporânea e política colonial portuguesa, desde o período do triunfo do liberalismo até aos períodos mais recentes da nossa História.

Foi pois, com alguma emoção, muito respeito e uma profunda veneração pelo Homem que deu nome a esta Biblioteca que iniciei esta primeira visita em que fomos acompanhados pela Professora Doutora Olga Iglésias.
Instalações modelares, modernas, confortáveis e muito funcionais, convidativas à leitura, estudo e investigação, esta Biblioteca poderá e deverá constituir uma importante e facilitadora ferramenta de trabalho para todos quantos agora iniciamos a nossa grande aventura no campus universitário. Depois das explicações gerais sobre os métodos e sistemas de arquivo da biblioteca, depois de evidenciada, através da experimentação pessoal de todos os membros da turma, a busca informática, através do sítio da biblioteca, disponível no site da UL, foi tempo para uma visita guiada que se centrou, sobretudo, nas prateleiras da bibliografia ali depositada e abrigada na grande área da História.

Uma aula diferente, muito produtiva e entusiasmante pelas novas perspectivas e novos horizontes que nos são agora facultados para uma integração plena e frutuosa.



1. – “Grande Enciclopédia Universal”, Vários Autores; Durclub, S.A.; Espanha, 2004; Volume 17; página 11654.

25 outubro, 2008

O Paço Real de Sintra

Paço de Sintra, Duarte de Armas, 1509

«Entre todos os de Portugal, o Paço de Cintra, é o monumento que melhor synthetiza a sua história, desde o dominio sarraceno e da conquista christã até os nossos dias»

Foi entre a serra e o mar que cresceu a Vila de Sintra, recortada pelas magníficas chaminés do seu Paço Real.
Das origens do Palácio pouco se sabe, no entanto é certa a existência de um velho palácio árabe, que na era cristã, se tornaria num local de lazer para alguns dos monarcas da primeira dinastia, atraídos pelo clima fresco e caça abundante.
Mais tarde, já durante o início do reinado de D. João I, começaram as obras de construção do actual palácio.

Ilustração da Raínha D. Amélia 1897


«Quem sabe se a loira Filippa, saudosa dos frios e brumosos nevoeiros de Inglaterra, tisnada pelo sol ardente da Estremadura, ou cansada da paizagem torrada da leziria, não sentiu a atracção do glorius eden que o seu conterraneo, séculos depois, havia de cantar, e não induziu o marido a rehaver o Palacio, e a construir um monumento que ficou assignado pelo cunho da sua epocha?»

Foi durante a Dinastia de Avis que o Paço Real de Sintra atingiu todo o seu esplendor. Palco das brincadeiras dos infantes da "inclíta geração", foi naquelas salas que se começou a construir a base do império portugus com a planificação da tomada de Ceuta. Por lá também passaram alguns dos maiores nomes da cultura daquele tempo: Sá de Miranda, Gil Vicente, ou mesmo Camões, que segundo a lenda teria lido os Lusíadas a D. Sebastião no pequeno Pátio da Audiência.
Numa rápida visita ao Palácio destaco a Sala dos Cisnes, com um tecto magníficamente decorado por 27 cisnes em diversas posições, cada um ostentando um colar dourado ao pescoço. Logo a seguir a Sala das Pegas evoca a memória de todas as senhoras que falam do que não devem.
A Sala dos Brasões é talvez a mais famosa e a mais bonita e constitui a grande força de afirmação do poder real. No alto da cúpula estão as armas do rei, secundadadas pelas dos infantes e logo abaixo, setenta e dois brasões da mais notável nobreza da época. Logo a seguir a um pequeno corredorleva-nos ao quarto-prisão do infeliz D. Afonso VI. Descendo até à capela podemos admirar o lindíssimo tecto em madeira, notável exemplo da arte mudéjar. Finalmentre a visita termina na cozinha do Palácio onde se destacam os 33 metros de altura das chaminés e, logo à entrada os brasões do Rei D. Luís e de D. Maria Pia de Sabóia , com a inscrição: "Lusos às Armas, pela Fé, pelo Rey e pela Pátria."

«Vê-se passar allucinado, sonhando com a jornada de África, o corpo franzino do casto e abstémio D. Sebastião, Nun' Alvares da perdição, em cujo cerebro tremúla a pluma agitada do heroísmo. E lá em cima na estancia solitaria ouve-se o passo do infeliz Afonso VI gastando os ladrilhos...»

Citações a negrito, retiradas do livro; "O Paço Real de Sintra" da autoria do Conde Sabugosa, Lisboa, Imprensa Nacional, 1903.