17 dezembro, 2008

O que é a Verdade Histórica?

- A Escrita da História…

A partir dos anos setenta, do século XX, as teorias sobre a historiografia atingem um ponto de não retorno, sobre tudo o que se havia dito, escrito ou especulado, durante os últimos três quartéis, desde logo sublinhando o abandono das teses e posições marxistas[1] da história e avançando com uma nova tendência, profundamente marcante e inovadora, no que vai destas três últimas décadas.
Esta nova corrente, ou escola, segue os passos da crítica pós-moderna, assumindo e evidenciando as fragilidades e incongruências das ideias uniformizadoras e estanques dos modelos até então usados.
Assim, não é de estranhar que na historiografia mais recente, um pouco à imagem de outras ciências sociais, como a antropologia e a filosofia, a importância e a influência multidisciplinar da análise da linguagem e da escrita e a relevância da diversidade cultural matizem as grandes linhas de pensamento, de acção, de investigação e de fazer uma nova história.
O novo discurso historiográfico, em consonância, com a heterogeneidade da nova corrente de pensamento, permite novos olhares, novas perspectivas, novas análises e novas reflexões. Permite construir e desconstruir, na base de uma teoria da própria linguagem e da sua representação, enfocando a não diferenciação entre a realidade e a linguagem.
Mais, a pertinência objectiva da história, em plena época da globalização, com excesso de fontes e dados, informações em real time e profusão de pontos de vista, sempre disponíveis e à mão do investigador, leva-nos a uma incessante busca da verdade, em detrimento das descobertas.
Não é pois de estranhar que a super especialização, também ao nível da historiografia, deixe marcas…daí que tenham surgido, a microhistória e a nova história. Novas páginas, consagradas pela “ciência história sócio-cultural”, tese e expressão divulgadas pelos trabalhos de Christopher Lloyd (1996), que contemplam uma assunção da História como ciência e arte “integradora dos factores de constituição da identidade subjectiva e objectiva dos agentes racionais humanos, individual e colectivamente” [2].
Em Portugal, paradigma do pensador e do investigador desta nova corrente, o Professor José Mattoso, brindou-nos com alguns dos textos teorizantes, mais felizes e acessíveis, talvez por serem dirigidos a não historiadores [3].
Desde logo, porque defende a prática da lógica, para a efectiva produção de um discurso rigoroso, consistente e coerente e adopta de forma simplificada ou simplista a conceptualização das outras ciências sociais e humanas como referência para as suas próprias investigações, sem grandes divagações pelo aprofundamento filosófico dessas mesmas noções conceptuais.
Segundo José Mattoso, para a elaboração do discurso histórico há que ter presente três etapas decisivas: a leitura e exame racional do passado, através das fontes ou marcas; a representação mental que daí resulta; e, a produção de um texto, escrito ou oral, que permite emitir uma comunicação com os demais.
Na primeira etapa, há que haver contenção e uma selecção, tendo em atenção a relatividade, a globalidade e a contemplação, pois muitas vezes o “objecto da História não é o facto em si mesmo, mas o que ele eventualmente possa representar para o destino da Humanidade”. É, ainda, Mattoso, quem nos aconselha a um olhar “mais atento, mais lúcido e mais apaixonado” e, acrescenta… “muita atenção e muita imaginação para não esquecer todos os factores que interferem na História”.
Na segunda fase, há que verbalizar um reconhecimento, admirativo e emotivo, uma apreensão harmónica do real, uma comunhão total da ordem estabelecida na vastidão da acção e pensamento humanos.
Na terceira e última etapa, importa o veículo entre a emissão e a recepção, interessa a comunicação. E, essa comunicação, a par do seu conteúdo científico, tem que ser escrita de forma apaixonada, poética, literária, pois só assim, pode descrever essa ordem encontrada e essa grandeza e fascínio do passado.
Mas, em jeito de conclusão, sobre a verdade da história e a escrita da história, José Mattoso, faz sublinhar que, independentemente do papel importante e decisivo do historiador e da historiografia, a verdadeira pedra de toque de todo o processo da revelação e da transcendência da realidade da história é o momento mágico e irrepetível em que cada um de nós é tocado pela história, o que muitas vezes passa, pelo próprio silêncio e ausência de indicadores exteriores, bastando-nos, a nossa própria sensibilidade, a nossa íntima convicção, a nossa emoção, a nossa contemplação, a nossa própria capacidade de olhar, de observar e ver e a nossa própria maneira de estar e de ser agentes da História.

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[1] Rezende Martins, Estevão de, “História”, Crítica:Revista de Filosofia e Ensino, Universidade de Brasília, 30 de Agosto de 2004.
[2] Idem.
[3] Mattoso, José, “A Escrita da História”, Conferência realizada na Faculdade de Ciências e Tecnologia da universidade Nova de Lisboa, 22 de Outubro de 1986.

1 comentário:

Ivani Medina disse...

“A verdade histórica é a mais ideológica de todas as verdades científicas [...]Os termos de subjetivo e de objetivo já não significam nada de preciso desde o triunfo da consciência aberta [...]. A verdade histórica não é uma verdade subjetiva, mas sim uma verdade ideológica, ligada a um conhecimento partidário”. (ARON cit. por Marrou, s/ data, p. 269)

Se a fé nunca dependeu da história, porque fazem tanta questão desta última? Por que insistem em preservar essa bruma que envolve os primeiros séculos do cristianismo? Não devia ser assim. No entanto, quando fazemos uma aproximação dos fatos com fatos e não com ideias, é possível outra conclusão.

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