19 abril, 2009

Corsários v/s Piratas! a história repete-se no Oceano Indico








O governo da Somália entrou em colapso em 1991. Nove milhões de somalianos passam fome desde então. E todos e tudo o que há de pior no mundo ocidental rapidamente viu, nessa desgraça, a oportunidade para assaltar o país e roubar de lá o que houvesse. Ao mesmo tempo, viram nos mares da Somália o local ideal para lançar o lixo nuclear do planeta.


Exactamente isso: lixo atómico. Mal o governo se desfez (e os ricos partiram), começaram a aparecer misteriosos navios europeus no litoral da Somália, que jogavam ao mar contentores e barris enormes. A população do litoral começou a adoecer. No começo, erupções de pele, náuseas e bebés malformados. Então, com o tsunami de 2005, centenas de barris enferrujados e com vazamentos apareceram em diferentes pontos do litoral. Muita gente apresentou sintomas de contaminação por radiação e houve 300 mortes.


Quem conta é Ahmedou Ould-Abdallah, enviado da ONU à Somália: “Alguém está jogando lixo atómico no litoral da Somália. E chumbo e metais pesados, cádmio, mercúrio, encontram-se praticamente todos.” Parte do que se pode rastrear leva directamente a hospitais e indústrias europeias que, ao que tudo indica, entrega os resíduos tóxicos à Máfia, que se encarrega de “descarregá-los” e cobra barato. Quando perguntei a Ould-Abdallah o que os governos europeus estariam fazendo para combater esse “negócio”, ele suspirou: “Nada. Não há nem descontaminação, nem compensação nem prevenção”.


Ao mesmo tempo, outros navios europeus vivem de pilhar os mares da Somália, atacando uma das suas principais riquezas: pescado. A Europa já destruiu seus stocks naturais de pescado pela super-exploração e, agora está super-explorando os mares da Somália. Cada ano, saem de lá mais de 300 milhões de atum, camarão e lagosta; são roubados anualmente, por pesqueiros ilegais. Os pescadores locais tradicionais passam fome.


Mohammed Hussein, pescador que vive em Marka, cidade a 100 quilómetros ao sul de Mogadishu, declarou à Agência Reuters: “Se nada for feito, acabarão com todo o pescado de todo o litoral da Somália”.


Esse é o contexto do qual nasceram os “piratas” somalianos. São pescadores somalianos, que capturam barcos, como tentativa de assustar e dissuadir os grandes pesqueiros; ou, pelo menos como meio de extrair deles alguma espécie de compensação.


Os somalianos chamam-se “Guarda Costeira Voluntária da Somália”. A maioria dos somalianos os conhecem sob essa designação. [Matéria importante sobre isso, em The Armada is not the solution”.] Pesquisa divulgada pelo site somaliano independente WardheerNews informa que 70% dos somalianos aprovam firmemente a pirataria como forma de defesa nacional”.


Claro que nada justifica a prática de fazer reféns. Claro, também, que há gangsters misturados nessa luta – por expemplo, os que assaltaram os carregamentos de comida do World Food Programme. Mas em entrevista por telefone, um dos lideres dos piratas, Segule Ali disse: “Não somos bandidos do mar. Bandidos do mar são os pesqueiros clandestinos que saqueiam nosso peixe.” William Scott entenderia perfeitamente.


Porque os europeus supõem que os somalianos deveriam deixar-se matar de fome passivamente pelas praias, afogados no lixo tóxico europeu, e assistir passivamente os pesqueiros europeus (entre outros) que pescam o peixe que, depois, os europeus comem elegantemente nos restaurantes de Londres, Paris ou Roma? A Europa nada fez, por muito tempo. Mas quando alguns pescadores reagiram e intrometeram-se no caminho pelo qual passa 20% do petróleo do mundo. . . imediatamente a Europa despachou para lá os seus navios de guerra.


A história da guerra contra a pirataria em 2009 está muito mais claramente narrada por outro pirata, que viveu e morreu no século 4 aC. Foi preso e levado à presença de Alexandre, o Grande, que lhe perguntou “o que pretendia, fazendo-se de senhor dos mares.” O pirata riu e respondeu: “O mesmo que você, fazendo-se senhor das terras; mas, porque meu navio é pequeno, sou chamado ladrão; e você, que comanda uma grande frota, é chamado imperador.”


Também faz-nos lembrar da maneira como os Portugueses contaram a história dos Marakkars de Calecute na Índia.


Hoje, outra vez, a grande frota europeia lança-se ao mar, rumo à Somália – mas. . quem é o ladrão?

18 abril, 2009

Associativismo e identidade moçambicana


A Professora Olga Iglésias defendeu ontem, dia 17 de Abril, na Universidade Nova de Lisboa a sua tese de doutoramento em que estudou durante mais de duas décadas o associativismo ligado à luta da independência de Moçambique.
"É um motivo de orgulho para o curso de História que tem beneficiado das diligências da Professora Olga como docente, investigadora e animadora do Núcleo Lusófono da História" - afirma o Coordenador do Curso de História na Universidade Lusófona de Lisboa, o Prof. Doutor Teotónio R. de Souza.
A Prof. Doutora Olga Iglésias vai continuar as suas investigações, integradas na linha de Africanologia, na ULHT, sobre o associativismo islâmico em Moçambique.

16 abril, 2009

Apostar no Presente! mas até ver

Os filhos do Delegado

Conheci o Carlão (nome fictício, porque não me lembro dele, não tanto para salvaguardar a sua identidade) no Recife, num fast-food brasileiro que ficava aberto pela noite dentro. Era irmão de um amigo meu. Grande, sem um dente na frente, mas com aparelho ortodontológico (credo!), gordão, cabelo rapado, feições negras, Carlão era taxista, tal como o irmão. Sorria para mim, sabia quem eu era. O irmão já lhe havia contado das nossas noitadas nos night-clubes do Recife, atoladas de caipirinha, Wisky, rodeados de mulheres lindas, interesseiras.Morto há largos anos o patriarca da família, um valente delegado do Recife, com fama interestadual feita à custa das balas justiceiras, a família ficara um tanto ou quanto desamparada, sem referências, futuro precário. A ambição de procurar mais e melhor fê-los potenciais emigrantes. O sonho americano (dos EUA) e europeu era assunto diário, no pequeno apartamento onde tantas vezes estive. A vida ali seria melhor. A mãe tentou, em vão, duas vezes o consulado americano no Recife: documentos sem fim, comprovativos de emprego fixo e rentável, conta no banco choruda, entre outros. A corajosa senhora, ainda nova e antiga bem-sucedida empresária de produtos de beleza multinacionais, não desesperava. Incentivou talvez os filhos, ainda novos e "com bom corpo para trabalhar".Carlão vendeu um dia o taxi e sabe-se mais lá o quê. Arriscou pagar uma viagem que o levaria para os states, por vias ilegais. Recife-São Paulo, São Paulo-Cidade do México, e daqui para Monterrey ou outra qualquer cidade mais juntinha à fronteira. Estiradas só existem para quem não sonha e não quer. Carlão conseguiu. Passou a fronteira, ludibrou as autoridades. Consta que está bem, já comprou um apartamento no Recife com dólares, que doutra maneira só em sonho.O meu amigo, esse, chegou um dia mais tarde a Portugal. Fui esperá-lo ao aeroporto. A carteira apinhada de cartões de crédito, a conta a zero. Vinha de blazer azul, calça de ganga e sandália (ridiculamente espectacular ou espectacularmente ridículo). Disse ao Serviço de Estrangeiros e Fronteiras que no Brasil era micro-empresário no ramo automóvel (de facto não mentiu-era taxista no Recife), que vinha em férias. Deixaram-no entrar e nunca mais de cá saiu.
Amiiigoooo, boa sorte!
[salvaguardados os direitos do autor] Araujo Pedro <pedroaraujo68@gmail.com>