15 novembro, 2005

Duarte Gomes Solis - Discursos sobre los Comércios de las Índias

A maior contradição que Solis procura demonstrar nesta obra é um Império disfraçado en la apariencia, faltando en el la sustancia.Critica ferozmente a mentalidade ibérica, demasiado religiosa e conservadora em relação ao comércio, e o desprezo votado pela elite governante em relação aos mercadores, contrariamente o que acontece com venezianos, genoveses ou holandeses e ingleses . Acresce que para piorar a crise ibérica, a Fazenda-Real é gerida por pessoas não ilustradas no comércio , e que apenas uma junta de ricos comerciantes, preparados por possuírem um conhecimento profundo da economia, poderá contornar a crise . Por outro lado defende a minoria religiosa judaica, advertindo que os judeus ibéricos, detentores do grande capital financeiro, ao serem perseguidos ajudam venezianos e turcos , e como contraponto à perseguição que lhe é feita em todo o império filipino, apresenta a liberalidade holandesa que os sabe aproveitar e tomar partido das suas redes comerciais e de conhecimento.
Nesta análise tão profunda ao império filipino, Solis revolta-se através das suas palavras contra os nobres, os verdadeiros inimigos dos mercadores, a quem pedem empréstimos, e a quem denunciam de falsos cristãos quando não são socorridos, e que utilizam a origem judaica para usurparem os seus bens .
Utilizando um ditado de época “ a um Mercador-Cavaleiro não fies o teu dinheiro e de um Cavaleiro-Mercador guarda-te”, Duarte Gomes Solis dá a estucada final dizendo que se os Cavaleiros fossem Mercadores, puderia a Espanha e Portugal triunfar, na medida em que seria melhor para o Rei que o seu Reino fosse rico e Cavaleiros ricos Mercadores, e que dessa forma teria a Península Ibérica capacidade para gerir a Índia à semelhança dos Holandeses, que seguindo o principio Cavaleiro-Mercador ofereciam melhor comércio tanto a chineses como a japoneses, que siendo enemigos por naturaleza, y contra voluntad de sus Reyes, y a’riesgo de que siendo hallados seran luego Castigados: pero la codicia que tambien por su modo es maestra de todas las artes los amistò, y domesticò para los traer a sueldo, y no quiera Dios que se vean señores de la mar, y de la Índia, porque daran buelta en sus mercancias, de que se sabran aprouechar como mercaderes, y Capitanes .
Com estas palavras inflamadas de tom profético terminamos o nosso artigo. O Discurso sobre los Comércios de las Índias seria publicado em 1622, e o seu autor, Duarte Gomes Solis faleceria dez anos depois em 1632, deixando-nos nas suas palavras a visão densa e rica em pormenores da mentalidade de um arbitrista português seiscentista.
Passados quase quatro séculos, os nossos governantes continuam a acentuar a nossa decadência, demasiado ocupados em picardias inúteis e colocando em segundo plano projectos viáveis. A nossa sociedade continua a perseguir os úteis protegendo os inúteis, e apesar de estarmos em pleno século XXI continuamos com as mesmas raízes mediévicas... Todos os dias imolam a nossa inteligência com palavras criminosas... Como costuma dizer um amigo meu:
Portugal é um país de agricultores...
Os que podem cavam daqui.
Os que não podem são aqui cavados.
Os que ficam... são os nabos.
Aqui fica o apelo, deixemo-nos de vãs melancolias e aproveitemos o material humano que nos devia honrar cá dentro, e não o deixemos escapara para fora...

11 novembro, 2005

Uniformização da sociedade

(continuação)
Para se atingir este estádio em que a população sente a necessidade e é compelida a consumir, há que modificar o seu comportamento desgarrado e torná-lo uniforme e previsível. A solução não é nova, tendo já sido testada – e por algum tempo conseguida – pelos regimes totalitários do séc. XX: nazismo e estalinismo. Em ambos os casos, procedeu-se a um redireccionamento da sociedade, alterando os seus padrões comportamentais através da repressão e, sobretudo, da propaganda.
Como George Orwell demonstrou em 1984 a propaganda é o método mais eficaz de influenciar a opinião pública, desde que se controlem os meios emissores. E a propaganda serve os mais diversos fins, desde a publicidade comercial comummente aceite até à mobilização de massas com objectivos políticos.
Neste contexto surge como paradigmática a história do Instituto para a Análise Propagandística (Institute for Propaganda Analysis), criado em 1937 nos Estados Unidos, numa altura em que a propaganda nazi atingia o seu auge.[1] Tinha por missão efectuar uma análise da propaganda não racional com preparação de vários textos para estudantes liceais e universitários. Veio então a II Guerra Mundial, uma guerra total em todas as frentes, desde a frente de combate até ao conflito surdo, mas não menos determinante, pela posse de informações estratégicas e pelo ludibriar dos esforços inimigos na sua obtenção, além da acção psicológica levada a efeito quer para levantar o moral das próprias populações quer para desmoralizar as populações inimigas. Assim sendo, analisar a propaganda emitida tornara-se contraproducente em relação ao esforço de guerra e o Instituto seria encerrado em 1941.
Contudo, ainda antes do começo da guerra, já muitos sectores punham profundas objecções à sua actividade. Muitos educadores desaprovavam que se ensinasse a analisar a propaganda, por considerarem que isso tornaria os educandos indevidamente cínicos. As autoridades militares também não viam com bons olhos a análise propagandística, por recearem que os soldados começassem a examinar melhor as ordens dos sargentos instrutores. A grande maioria dos religiosos também era contra, considerando que tendia a enfraquecer a fé e a afastar as pessoas dos cultos. Os publicitários, por seu lado, opunham-se veementemente a que se analisasse a propaganda pois podia minar a fidelidade à marca e a reduzir as vendas.
Não serão de surpreender estas reacções “alérgicas” quando se falava de analisar a propaganda. Um exame demasiado pormenorizado, levado a cabo pelas pessoas, daquilo que é dito pelos seus líderes, sejam políticos, militares ou religiosos, poderia tornar-se extremamente subversivo. A ordem social depende, para a sua manutenção, da aceitação sem demasiadas questões embaraçosas da propaganda posta a circular pelas autoridades, embora seja de evitar uma postura acrítica perante as informações veiculadas.No entanto, faltará ainda o catalisador que terá a função de impelir a profundas modificações na ordem social vigente de modo a torná-la uniforme e previsível. Tanto em 1984 de George Orwell como em Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley, como em muitas outras obras que descrevem uma sociedade futura[2], o catalisador é uma guerra ou, melhor dizendo, uma última Grande Guerra, imensamente mais aniquiladora que todas as anteriores, de tal forma que produz um profundo impacto na mente das populações, criando terreno fértil para a aceitação de uma nova ordem social.

CONTINUA

[1] Cf. Aldous Huxley, Regresso ao Admirável Mundo Novo, Lisboa, Livros do Brasil, 2001
[2] Cf. Richard Osborne, Homem Demolidor, Mem-Martins, Publ. Europa-América, 1993, colec. Ficção Científica, n. 203. Adaptação do argumento do filme com o mesmo título, protagonizado por Sylvester Stallone e Wesley Snipes, em que se descreve um mundo após uma guerra global com elevadíssimos custos em vidas humanas e na destruição da propriedade e das instituições, do qual emerge uma sociedade absolutamente pacífica em que as pessoas ficam simplesmente nauseadas com a mais leve sugestão de violência.

04 novembro, 2005

Portugal precisa de mim?!

Confesso que não estava nada à espera, mas foi essa a conclusão a que cheguei quando vi uns outdoors espalhados pelas avenidas de Lisboa.
O pior é que ninguém ainda me tinha dito nada e eu estava aqui descansado da minha vida, ocupado com os meus problemas, quando afinal o país (não a região, não o concelho, não a localidade, mas nem mais nem menos que o país inteiro) estava dependente da necessidade da minha pessoa.
Por um lado é um orgulho que um indivíduo sente em haver uma instituição como Portugal, com quase 900 anos de História, a ter assim tão grande precisão dos seus préstimos que se veja na obrigação de o anunciar de forma tão veemente. Não havia necessidade de tanto, bastava dar-me uma telefonadela.
Por outro lado, Portugal não refere concretamente em que é que eu o posso ajudar. Sou um simples cidadão, cumpridor das suas obrigações, votante e pagante de impostos, amável para com os vizinhos, carinhoso para com as crianças, respeitoso para com os idosos (e podia ir por aí fora a descrever qualidades), mas que tem uma esfera de acção limitada.
Assim, agradecia a Portugal que me informasse em que situação é que lhe posso ser útil, para que eu possa ver o que se pode arranjar.
Sem outro assunto, subscrevo-me com elevada estima e consideração.