11 novembro, 2005

Uniformização da sociedade

(continuação)
Para se atingir este estádio em que a população sente a necessidade e é compelida a consumir, há que modificar o seu comportamento desgarrado e torná-lo uniforme e previsível. A solução não é nova, tendo já sido testada – e por algum tempo conseguida – pelos regimes totalitários do séc. XX: nazismo e estalinismo. Em ambos os casos, procedeu-se a um redireccionamento da sociedade, alterando os seus padrões comportamentais através da repressão e, sobretudo, da propaganda.
Como George Orwell demonstrou em 1984 a propaganda é o método mais eficaz de influenciar a opinião pública, desde que se controlem os meios emissores. E a propaganda serve os mais diversos fins, desde a publicidade comercial comummente aceite até à mobilização de massas com objectivos políticos.
Neste contexto surge como paradigmática a história do Instituto para a Análise Propagandística (Institute for Propaganda Analysis), criado em 1937 nos Estados Unidos, numa altura em que a propaganda nazi atingia o seu auge.[1] Tinha por missão efectuar uma análise da propaganda não racional com preparação de vários textos para estudantes liceais e universitários. Veio então a II Guerra Mundial, uma guerra total em todas as frentes, desde a frente de combate até ao conflito surdo, mas não menos determinante, pela posse de informações estratégicas e pelo ludibriar dos esforços inimigos na sua obtenção, além da acção psicológica levada a efeito quer para levantar o moral das próprias populações quer para desmoralizar as populações inimigas. Assim sendo, analisar a propaganda emitida tornara-se contraproducente em relação ao esforço de guerra e o Instituto seria encerrado em 1941.
Contudo, ainda antes do começo da guerra, já muitos sectores punham profundas objecções à sua actividade. Muitos educadores desaprovavam que se ensinasse a analisar a propaganda, por considerarem que isso tornaria os educandos indevidamente cínicos. As autoridades militares também não viam com bons olhos a análise propagandística, por recearem que os soldados começassem a examinar melhor as ordens dos sargentos instrutores. A grande maioria dos religiosos também era contra, considerando que tendia a enfraquecer a fé e a afastar as pessoas dos cultos. Os publicitários, por seu lado, opunham-se veementemente a que se analisasse a propaganda pois podia minar a fidelidade à marca e a reduzir as vendas.
Não serão de surpreender estas reacções “alérgicas” quando se falava de analisar a propaganda. Um exame demasiado pormenorizado, levado a cabo pelas pessoas, daquilo que é dito pelos seus líderes, sejam políticos, militares ou religiosos, poderia tornar-se extremamente subversivo. A ordem social depende, para a sua manutenção, da aceitação sem demasiadas questões embaraçosas da propaganda posta a circular pelas autoridades, embora seja de evitar uma postura acrítica perante as informações veiculadas.No entanto, faltará ainda o catalisador que terá a função de impelir a profundas modificações na ordem social vigente de modo a torná-la uniforme e previsível. Tanto em 1984 de George Orwell como em Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley, como em muitas outras obras que descrevem uma sociedade futura[2], o catalisador é uma guerra ou, melhor dizendo, uma última Grande Guerra, imensamente mais aniquiladora que todas as anteriores, de tal forma que produz um profundo impacto na mente das populações, criando terreno fértil para a aceitação de uma nova ordem social.

CONTINUA

[1] Cf. Aldous Huxley, Regresso ao Admirável Mundo Novo, Lisboa, Livros do Brasil, 2001
[2] Cf. Richard Osborne, Homem Demolidor, Mem-Martins, Publ. Europa-América, 1993, colec. Ficção Científica, n. 203. Adaptação do argumento do filme com o mesmo título, protagonizado por Sylvester Stallone e Wesley Snipes, em que se descreve um mundo após uma guerra global com elevadíssimos custos em vidas humanas e na destruição da propriedade e das instituições, do qual emerge uma sociedade absolutamente pacífica em que as pessoas ficam simplesmente nauseadas com a mais leve sugestão de violência.

2 comentários:

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