21 outubro, 2008

Por Santiago, Patrono da nossa Ibéria Histórica!

Acabo de chegar de uma peregrinação cultural a Santiago de Compostela, guiado pela bondade e pela sabedoria do Cónego Armando Duarte e rodeado por alguns amigos e muitos paroquianos da Basílica de Nossa Senhora dos Mártires, erigida no coração boémio, tradicional e cosmopolita do nosso secular Chiado, em Lisboa, a quem me uniam a fraternidade cristã, me irmanavam a prática de uma palpitante nova evangelização e a devoção ao Glorioso Apóstolo Tiago, Patrão da Ibéria. Acredito, sinceramente, que Santiago, quando por aqui andou por estas terras da peninsular ponta do velho continente, dando a conhecer a Palavra do Senhor, não ficou indiferente ao fenómeno do que era já, então por aqueles tempos, os radiosos, significativos e impressivos marcos da História. De certo que, por aquelas épocas bíblicas, a Santiago, não foi dado o prazer de ver uma paisagem como nós hoje a conhecemos, repleta de monumentos, obras e feitos assinados pela capacidade evolutiva do Homem, ao longo dos séculos. Mas, as inúmeras evidências e os múltiplos registos da História, já então existentes, por estas belas paragens, foram seguramente motivo da atenção e lógica avaliação do primo - irmão de Jesus. Santiago, de certeza, que pelo belo espectáculo observado nos campos desta Ibéria nossa, ficou historiador amador!
A renovação e a consolidação da Fé, nos conturbados tempos que vivemos – e tempos ainda mais difíceis se avizinham, tanto em Espanha como em Portugal, para quem ainda acredita na tradição - em actos como este, onde a alegria da partilha, da comunidade e da solidariedade, se sobrepõem às dificuldades próprias da caminhada, fazem-me pensar que, como amantes da História, historiadores amadores ou simples alunos de História, também nós, não podemos continuar a olhar só para o nosso umbigo! Há que dar as mãos, unir esforços, esbater diferenças, combater o imobilismo, ultrapassar as comodidades e os egoísmos, limar arestas e cerrar fileiras. Há, também, que ultrapassar fronteiras! Sem falsas modéstias nem arrogantes convicções! De um lado e de outro da fronteira, assim como há gente com fé, independentemente da língua, há historiadores que urge reunir pelos valores e experiências que têm em comum!
No início de Janeiro, estive em Arévalo, província de Ávila, na celebração de umas inolvidáveis jornadas culturais internacionais, onde num serão, com a participação de mais de duzentos e atentos interessados, se deu a conhecer realidades culturais e históricas nacionais em terras de Sua Majestade Espanhola. Aproxima-se, a passos largos o início dos anos académicos de várias instituições científicas e culturais que juntam investigadores e historiadores ibéricos, sobretudo ao nível das Ciências ditas Auxiliares da História e a reunião da grande Família da Comunidade Científica ligada à Heráldica, à Genealogia, à Falerística, à Sigilografia, etc…de ambos os países ibéricos. E, logo a seguir, no VI Colóquio Internacional de Genealogia, já agendado para Abril de 2009, em Guimarães, lá estarei a marcar presença em mais uma edição em que a nossa capacidade organizativa acolherá os melhores de todo o mundo na área das ciências genealógicas. É, com estas actividades que me refaço de um saudável gozo e orgulho com as cores de Portugal.
Contra os ventos de desânimo, os perigos que se mostram sob a capa dos totalitarismos ditos democráticos, não é com balofos e passadistas conceitos de falsos nacionalismos que conseguimos rumar por uma História melhor, mais profissional, mais tecnologicamente evoluída – no verdadeiro sentido do termo! - e com um futuro mais risonho! Cabe à iniciativa privada, à sociedade civil, à Academia, à Universidade, marcar o rumo dos novos tempos, sem paternalismos ou patrocínios oficiais. A História, porque universal, é única! E, se me perdoam, o ‘pecado’…única e imortal! Saibamos ser dignos de continuar o trabalho imenso de desbravar e compreender a História para um melhor e maior bem estar no Futuro que caberá aos nossos filhos e netos!

20 outubro, 2008

SÉ DÁ DÓ...

Não, não se trata de um título de uma música dos Abba. São três palavras que formam uma frase. Acrescente-se o artigo "A" no início e temos A Sé (freguesia do Porto) DÁ (verbo-3ªa pessoa do verbo dar) DÓ (do latim dolu-sentir dor; pena, em português trivial).
Não me vou referir a nenhuma degradação de monumentos; não vou apontar a desertificação preocupante que o Porto tem vindo a sofrer.
Quem anda pela Rua Escura, pela Bainharia, e até mais "cá em cima", pela Batalha, não pode deixar de reparar nos habitantes da Sé, pelo seu aspecto medieval.
Nos tempos medievais, nomeadamente, e mormente, em períodos de fome, o povo andaria sujo, mal vestido, dentição precária, cabelos desgrenhados, imundos. Muitas pessoas coxeariam, tal a ausência de cuidados médicos e consequentes mazelas. Partir uma perna poderia significar ficar a coxear para toda a vida. Uma cárie, que deveria começar em tenra idade, tal a falta de conhecimentos, informação e meios para cuidar dos dentes, significaria, mais tarde ou mais cedo, menos um dente. Imagino a quantos não faltariam dentes, imaginando até que poucos teriam mais de 4 ou 5, e mesmo esses a sangrar e a querer cambalear na gengiva. As unhas sujas, partes íntimas nauseabundas, pés com quantidades generosas de "sulfato", traduzindo reações químicas inimagináveis e cheiros de odor forte, mas não incomodativo, tal a coerência de comportamentos existente nessa época.
Na Sé, as pessoas na Idade Média já deveriam gritar umas com as outras, acto tão próprio de quem nasce a ouvir os familiares e vizinhos a gritar. Não havia internet nem telefone e gritar seria um bom meio de fazer passar a menssagem, mesmo de quem estivesse no cimo da muralha fernandina e quisesse falar com o primo, mais próximo da Sé Catedral. Não conheço nenhum estudo sobre os palavrões, se são coisa recente, se antiga (O Prof. Alfredo Margarido diria, a este propósito "está por realizar a monografia do palavrão"), mas imagino um povo imundo e sem dentes a dizer muitos palavrões, que substituíam expressões de mais difícil pronúncia, de maior dificuldade vocal ou, de inverso modo, desconhecimento de palavras que substituíssem os milenares, tradicionais e familiares palavrões.
Aqui um parêntese para observar que talvez a ausência de dentes, sobretudo nos meios mais pobres, mas não só, pode até ser responsável pela pronunciação continuadamente errada de certas palavras, podendo até dar-se o caso de alterações definitivas de pronúncia ao nível popular. Já para não referir alterações profundas no linguajar. ( o Prof. Margarido diria "está por fazer um estudo sobre a influência da ausência de dentes nas alterações da pronúncia").
Gente pobre, que comia o que havia, e quando digo "o que havia" não digo sardinha enlatada em vez de salmão; não digo pão com manteiga em vez de pão com bife; não digo maçã em vez da cara e longínqua manga.
Passados tantos séculos muitos destes pontos mantêm-se. Mesmo que fossem excepções, poderia falar-se nelas como reais, tradicionais, mas, sobretudo, dramáticas, com características de triste fado. Mas não, não são excepcionais, são muitas, visíveis, audíveis, perceptíveis, cheiráveis (olfactáveis?).
A Sé dá dó, com os seus habitantes sujos e coxos, com espaços no lugar dos dentes, com as mãos sujas, de saco de plástico nos braços, sapatos velhos, corcundas Os mais novos, de pulmões ainda vigorosos, a insultarem os filhos, insultando-se muitas vezes, não sei se por engano, a si próprios e aos pais das crianças. Melhor vestidos, por vezes, mas ainda assim, e sempre, com qualquer marca própria, típica de gente pobre há gerações.
Todos fomos um dia pobres, isso é certo, mas estas gerações da Sé do Secs. XX e XXI pararam no tempo um dia. Alguns mudaram-se, uns levando com eles as tradições milenares, transportando-as para outras regiões e com eles o linguajar, os modos grosseiros, mas talvez já não a roupa suja e os dentes tão podres; outros deixaram os dentes podres na Rua Escura, entrando no progresso, rumo a uma globalização que teima em afastar-se da Sé.

O ACORDO ORTOGRÁFICO E A PRÉ-HISTÓRIA

Não se preocupem os mais conservadores, porque mais de 30 milhões de indivíduos que falam português talvez nunca venham a aplicar/utilizar nenhuma das novidades do novo Acordo Ortográfico. Ao que se sabe nem o acordo de 1990 a esta "fatia de queijo" da população lusófona chegou. Digo "fatia de queijo" intencionalmente, porque há fatias de queijo que são melhor tratadas, por um lado, e pessoas, seres humanos, que são tratadas como números, como fatias de um qualquer queijo estatístico, na melhor das hipóteses.
O Novo Acordo é bem vindo, eu sei, mas era bom fazer chegar um acordo qualquer, nem que fosse um de 1825 ou 1975, o que houver aí disponível, para que algumas franjas de população, nomeadamente no Brasil (14 milhões de analfabetos) e Moçambique (10 milhões de analfabetos) e, porque não, a Portugal, com 700 mil analfabetos, tivessem acesso a ortografia, nem que fosse a a uma semi-ortografia, ou seja, a uma ortografia em que metade de cada palavra fosse bem escrita, o que indiciaria, desde logo escrita e não a sua ausência.
Se a Pré-História é, por definição, o período antes da escrita, então trata-se tão-só de tirar 30 milhões de indivíduos desse período em que se encontram.